Reforma do sistema de saúde desperta o extremismo racial

A recuperação econômica não calará as multidões que atacam a reforma do sistema de saúde. O presidente americano, Barack Obama, precisará restaurar uma atitude moralNa segunda-feira passada, dois homens foram vistos carregando armas semiautomáticas diante do local onde o presidente pronunciava seu mais recente discurso sobre a reforma da saúde. Questionado sobre o porquê das armas, um dos homens respondeu: "Porque eu posso fazer isso. No Arizona, ainda tenho algumas liberdades." Essas observações somam-se a uma série inquietante de gestos extremistas que exprimem repulsa pelo presidente. Como um manifestante em Maryland que segurava um cartaz com os dizeres: "Morte a Obama" e "Morte a Michelle e a suas duas filhas idiotas".Obama terá muita dificuldade para se concentrar na política e, ao mesmo tempo, em repelir uma série de ataques da direita. Desde o começo, ele reconheceu que há necessidade de um debate legítimo sobre a melhor maneira de reformar o sistema de saúde, argumentando que seu plano pretende oferecer a máxima eficiência e estabilidade ao maior número possível de americanos. Ele menosprezou as farpas desonestas e incendiárias dos que querem pintá-lo como o diabólico conspirador do "painel da morte".O presidente chegou a ressaltar o componente emocional das recentes flechadas e a destacar a propensão da imprensa a dar mais atenção a episódios de ira e radicalismo do que a episódios de diálogo educado. Embora se refira ao extremismo exagerado com o qual é recebido a toda hora, ele se recusa a analisar diretamente seu teor ou a especular sobre sua fonte.Em um artigo publicado no jornal Observer, o comentarista político Michael Crowley argumenta que o extremismo manifestado nas multidões iradas e nos homens armados nas reuniões de Obama nas cidades visitadas representa a última fase da Revolução do Branco Irado na política americana.Segundo Crowley, esse arquétipo político foi cunhado na década de 90, quando os brancos que elegeram Bill Clinton, em 1992, votaram no Partido Republicano nas eleições legislativas de 1994. Na era Obama, o irado homem branco apareceu como "Joe, o Encanador" na campanha presidencial, protestou contra a nomeação de Sonya Sotomayor para a Suprema Corte e acusou Obama de racismo por seus comentários sobre a prisão do professor Henry Louis Gates.Crowley faz bem em ligar os pontos entre as manifestações anteriores de ira politizada e as de hoje. Mas é importante reconhecer que, atualmente, a intensidade da raiva que estamos testemunhando difere da de tempos passados em razão da raça de Obama.Nos piores casos, sentimentos conscientes de medo e ameaça que empurram cidadãos descontentes para uma ira descarada são intensificados por sentimentos subjacentes de ameaça e repugnância pela ideia de que outra pessoa, que não um branco, passe a ser a personificação e o representante da nação.Se for preciso encontrar um culpado, segundo o conceito do branco irado, Crowley argumenta que a melhor maneira de derrotar esses guerreiros da cultura será reerguendo a economia e destruindo a ira em suas raízes - nas estruturas econômicas, e não em patologias culturais.O debate sobre a reforma do sistema de saúde é, literalmente, uma questão de vida ou morte, de dor e sofrimento e da proliferação de práticas imorais adotadas pelos planos de saúde. Assim como é importante falar de controle de qualidade e de eficiência, é fundamental definir a reforma da saúde como uma obrigação moral - como algo que devemos uns para com os outros, como americanos e pais das futuras gerações.*Michael Jeffries é professor de estudos americanos do Wellesley College, em Massachusetts

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