Reforma econômica é novo desafio de Havana

Por enquanto, maior mudança ocorreu no setor agrário e alfandegário

Leda Balbino, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Depois das eleições legislativas de hoje em Cuba, a questão-chave que o governo terá de encarar é como pôr em prática as reformas econômicas prometidas pelo presidente interino, Raúl Castro, em discurso feito em 26 de julho. Na ocasião, o irmão mais novo do líder Fidel Castro afirmou que o governo considerava abrir mais sua economia para o investimento externo e permitir negócios para fornecer ''''capital, tecnologia ou mercados'''' ao país.''''Para evitar decepcionar a população cubana, o governo terá de tentar corresponder às expectativas'''', afirmou por telefone ao Estado Philip Peters, vice-presidente do Instituto Lexington, na Virgínia.Por enquanto, a mudança maior começa a ocorrer no setor agrário, cuja produção ineficiente foi criticada durante o mesmo discurso. Na lista dos produtos mais importados por Cuba, os alimentos ocupam a terceira posição, com 14,1%. Para reverter esse quadro, o governo quitou suas dívidas com os produtores rurais e aumentou o preço que paga pelos produtos.Além disso, Raúl expandiu a área das cerca de 160 propriedades agrárias privadas do país. ''''Essa medida foi tomada depois de se constatar que as terras privadas são muito mais produtivas do que as estatais'''', afirma Peters.Segundo um relatório publicado em outubro pela divisão de Comércio, Relações Externas e Defesa do Congresso dos EUA, outras reformas foram adotadas, como relaxar as regulamentações alfandegárias para facilitar a importação de aparelhos de DVD, peças de automóvel e televisões.''''Raúl também cancelou uma determinação de Fidel que proibia o funcionamento de restaurantes privados'''', afirmou Wayne Smith, analista sênior do Programa de Cuba do Centro de Política Internacional, em Washington. A mesma medida estendeu-se aos táxis privados, que antes eram impedidos de trafegar pela polícia.Mas essas medidas são muito pequenas considerando-se a precariedade da economia cubana, que depende amplamente dos dólares que chegam pelo turismo, por remessa dos exilados ou pela mineração de níquel - que em 2006 respondeu por 50,8% de todas as exportações do país. Como os salários cubanos são muito baixos (média de 200 pesos, ou US$ 26), os investidores não têm interesse em abrir empreendimentos para fabricar produtos que não serão consumidos por causa do baixo poder de compra da população.''''Temos visto um declínio nas inscrições nas faculdades'''', afirma Jaime Suchlicki, diretor do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade de Miami. ''''Os jovens preferem trabalhar como recepcionistas ou atendentes em bares de hotéis, onde ganham gorjetas em euros ou dólares, a ser engenheiros ou médicos '''', diz.Atualmente, o principal motor da economia cubana tem sido o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que envia ao país 92 mil barris diários de petróleo em troca de médicos cubanos que prestam serviços na Venezuela.Preocupado com essa dependência, Raúl tem tentado diversificar seus fornecedores. ''''Nos últimos meses, a Rússia deu ao país US$ 370 milhões em crédito, o que lhe permite comprar o que quiser'''', informa Suchlicki . O presidente interino também está se aproximando do Irã e de Angola, grandes produtores de petróleo, para o eventual fim da ajuda venezuelana.Mas os analistas avaliam que as maiores reformas só serão feitas após a morte de Fidel, que teme pela estabilidade do regime com uma maior abertura do país. ''''A população cubana quer reformas, quer uma vida mais confortável'''', afirma Smith, que completa: ''''Eles esperam que Raúl corresponda a sua expectativas - quando suas mãos estiverem livres.''''

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