''''Reforma permitirá que Chávez se torne mais autoritário e militarista''''

Jornalista afirma que manifestações de terça-feira retratam onda de descontentamento dos venezuelanos

Entrevista com

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2007 | 00h00

Caxambu - Para o ex-guerrilheiro Teodoro Petkoff, editor do jornal venezuelano Tal Cual - uma das principais vozes de oposição ao governo do presidente Hugo Chávez -, as manifestações de rua de terça-feira em Caracas atestam o crescente descontentamento da população com a reforma constitucional. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado em Caxambu, Minas, onde participa como convidado especial da reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Como o sr. viu os protestos em Caracas contra a reforma constitucional proposta por Chávez? O descontentamento com essa reforma é tão grande que está fazendo crescer uma oposição, que começa a tomar as ruas. Os manifestantes têm toda razão: a reforma busca fortalecer o autoritarismo e o militarismo, que já são próprios do regime, e entrar no totalitarismo. Ela cria a possibilidade de concentrar nas mãos de Chávez todo o poder público e o controle da sociedade. A pedra angular da reforma é dotar o presidente de poderes imperiais e dar-lhe a possibilidade de ser reeleito indefinidamente. Há uma rejeição geral às propostas, até mesmo entre setores do chavismo.Está dizendo que a base política de Chávez também faz restrições? Sim. Os quatro partidos da base de apoio do presidente o respaldavam sem restrições. Mas agora o Podemos, o segundo partido da lista em termos de importância, faz oposição decidida à reforma. E o Partido Pátria para Todos já expressou suas reservas. Além disso, o artigo sobre o estado de exceção, que elimina o consenso político, foi criticado pelo procurador-geral, que é homem de Hugo Chávez. Enfim, a reforma está criando um estado de confrontação.Também há restrições quanto às mudanças no Banco Central?Sim. A reforma prevê o fim da autonomia do Banco Central, com o presidente assumindo diretamente seu controle. Além disso, ela passa para as mãos do presidente o controle das reservas internacionais. Enfim, toda a política monetária do país fica nas mãos dele. Já vimos experiências de bancos centrais, na Venezuela e em outros países da América Latina, que serviam para financiar os governos, alimentando processos inflacionários.A simpatia de que Chávez desfruta entre grupos de esquerda da América Latina pode ser afetada?O fenômeno chavista causou, de fato, um certo eco na América Latina, muito estimulado por Cuba. Mas ele está ficando cada vez mais reduzido entre as principais correntes das forças da esquerda latino-americana. Isso ocorre em grande parte porque Chávez não tem o que mostrar. A Venezuela continua sendo um país capitalista, terceiro-mundista, com 60% de pobres e uma concentração de riqueza imensa.Chávez vai insistir nas reformas, apesar dos protestos?Ele só vai recuar se o panorama ficar muito complicado - porque é um político hábil e sabe a hora de retroceder.

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