Reforma síria está na fase final, diz dirigente

Abdullah al-Ahmar: secretário-geral-adjunto do partido governista sírio[br][br]Entrevista[br][br]Abdullah al-Ahmar

Entrevista com

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 00h00

Os EUA são um entrave maior para as negociações de paz entre a Síria e Israel do que os próprios israelenses. A afirmação é de um dos principais porta-vozes do regime de Bashar Assad, Abdullah al-Ahmar. Em entrevista ao Estado, o secretário-geral-adjunto do Baath (partido do governo sírio, no poder há décadas) disse ainda acreditar que americanos e israelenses estariam por trás do assassinato do premiê libanês, Rafic Hariri, morto em atentado no centro de Beirute em 2005, em ação na qual os EUA acusam o regime de Damasco.Quando Bashar Assad assumiu o poder após a morte do pai, Hafez Assad, a expectativa era a de que ele promovesse reformas no regime. Sete anos depois, as reformas não andaram. Por que?As reformas na Síria já começaram. Os que afirmam que as reformas pararam são justamente os que queriam que elas não ocorressem. A reforma tem de ser gradativa, em etapas contínuas. Desde que o presidente assumiu, várias leis foram criadas, mas o efeito não é imediato. O povo perceberá os resultados. Mas, por causa da instabilidade na região provocada pelas ocupações israelenses e a presença americana no Iraque, a rapidez das reformas na Síria foi afetada. A prioridade migrou para a área econômica. As leis na área política estão atrasadas, mas já estão prontas.Essas leis prevêem eleições democráticas? Para alguns países, como os EUA, a Síria é uma ditadura.Os EUA têm uma classificação na qual eles dizem que uma democracia é ditadura e vice-versa. Depende de o país ser aliado deles ou não. Veja a colaboração deles com regimes ditatoriais. Veja a democracia que eles querem no Iraque, separando etnias e religiões. Na Síria, há um sistema democrático desde 1971. No Parlamento, existem dez partidos.Mas algum deles é de oposição?Um terço dos membros do Conselho do Povo não é filiado a nenhum partido. Respeitamos a oposição quando há crítica construtiva, sem ser uma marionete nas mãos dos inimigos da Síria. Outro problema é a oposição ligada a grupos terroristas. Aqui na Síria, nossa lei não permite que exista um partido com base religiosa, de extremistas.Mas por que a Síria apóia o Hezbollah no Líbano e o Hamas nas áreas palestinas se ambos são partidos religiosos?A religião não é o problema. O problema é o extremismo. Existe uma diferença entre os extremistas e os muçulmanos verdadeiros, que são moderados. Além disso, damos apoio a esses grupos porque eles são forças de resistência no Líbano e nos territórios palestinos contra a ocupação. Todo país ocupado parte para a resistência, que só acaba quando há libertação. A mídia, sob domínio de Israel e dos EUA, cria inverdades. Mistura resistência e terrorismo. O terrorismo é uma doença mundial, enquanto a resistência é um direito legítimo.O Hamas explodiu ônibus e restaurantes em áreas reconhecidas pela Autoridade Palestina como território israelense. Isso não é terrorismo?Isso ocorreu durante um período. Mas hoje a luta é contra o combatente israelense, não o civil. Além do Exército regular de Israel, podemos considerar os colonos um tipo de Exército, pois são milícias armadas.O premiê de Israel, Ehud Olmert, disse publicamente que quer negociar com a Síria. Em uma palestra em Nova York neste ano, o embaixador sírio em Washington, Imad Mustapha, disse que o entrave para as negociações é o governo dos EUA. O problema seria os americanos e não Israel?A Síria quer a paz e declara isso há anos. Uma paz conforme as resoluções da ONU e de acordo com o princípio de terra por paz. Poderíamos ter alcançado a paz não fosse o assassinato de Yitzhak Rabin (premiê de Israel morto em 1995). Quem o matou foram os extremistas judeus, que hoje são maioria . Eles não são sérios. Quando houver um governo sério que queira a paz, a Síria estará disposta a negociar. Os EUA cumpriram o seu papel por um período no passado. Mas a atual administração dá apoio militar e político declarado aos planos de Israel para a região.A rivalidade entre a Síria e a Arábia Saudita vem crescendo, especialmente no Líbano, onde os sírios apóiam a oposição e os sauditas, o governo. Por que há essa diferença?A Síria e a Arábia Saudita são dois países árabes. Em alguns assuntos, há diferença de pontos de vista. Há uma clara divisão no Líbano. A Síria quer o bem do Líbano - independente, soberano, unificado. Estivemos no Líbano no passado porque os próprios libaneses pediram. Não damos ordens a nenhum grupo, apesar de termos apoio de algumas organizações. Já a outra parte, recebe ordens dos EUA.O governo libanês e os EUA acusam o regime sírio e seus aliados em Beirute de serem os responsáveis pela morte do premiê Rafic Hariri. A Síria nega. Para o governo sírio, quem são os responsáveis pelo atentado?Temos de esperar as investigações. Nós condenamos o assassinato e colaboramos com a corte internacional. O importante é observar quem se beneficiou e quem sofreu prejuízo com o atentado. Estamos certos apenas de que quem cometeu o ataque foi a parte beneficiada, que quer um clima de instabilidade na região.Quem? Os EUA? A Arábia Saudita?Os EUA e Israel. A Arábia Saudita não. Quem é Abdullah al-Ahmar:*É um dos principais dirigentes do Partido Baath, de orientação socialista, da Síria.*Representa o governo sírio do presidente Bashar Assad em visitas oficiais por vários países do Ocidente.*Esteve no Brasil no começo de setembro, onde assistiu ao Congresso do PT. Durante a visita, ele se reuniu também com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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