Reforma tenta recuperar 80 anos de dívida social

Lei atual faz dos EUA o único entre os países[br]mais ricos a não oferecer saúde universal para seus cidadãos

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

A reforma do sistema de saúde, que estava prevista para ser aprovada na noite de ontem, representa um avanço legislativo histórico para os Estados Unidos. Há mais de 80 anos presidentes americanos tentam aprovar uma lei que ofereça acesso universal à saúde. Os EUA são o único entre os países mais ricos que não garantem assistência médica para todos seus cidadãos.

A última aprovação de uma reforma social dessa envergadura foi em 1965, quando o então presidente Lyndon Johnson criou o Medicare, sistema por meio do qual o governo paga pela assistência médica a pessoas com mais de 65 anos. Antes disso, em 1935, o então presidente Franklin Delano Roosevelt assinou a Lei de Seguridade Social, criando a previdência e o seguro-desemprego. Mas, apesar de ser um avanço histórico, não está claro se a reforma trará dividendos políticos para o presidente Barack Obama.

Se a reforma não fosse aprovada, seria uma derrota para Obama - já que tramita há mais de um ano no Congresso e era uma das prioridades da agenda doméstica do presidente. Mas aprovar a lei pode ter efeito contrário ao esperado, uma vez que grande parte dos americanos (segundo a última média do Pollster, 49,9%) é contra a reforma. O movimento Tea Party nasceu, em parte, por oposição à reforma da saúde, com eleitores acreditando que a lei socializará a medicina. Para eles, Obama comporta-se como um comunista.

Portanto, a reforma pode trazer repercussões negativas na eleição legislativa de novembro, quando todos os deputados e parte dos senadores enfrentarão as urnas. Os republicanos prometem fazer da reforma da saúde uma bandeira eleitoral e conquistar cadeiras dos democratas que apoiaram a legislação.

Descrentes. O presidente Obama acha que, uma vez aprovada, a reforma de saúde será compreendida melhor pelos americanos. Hoje, acredita Obama, muitos são contra o projeto que tramita no Congresso porque ainda não sabem exatamente do que se trata.

"É possível que, depois de assinar a reforma e transformá-la em lei, fique mais difícil para os opositores distorcer o conteúdo da reforma", disse o presidente americano num pronunciamento no sábado.

A lei sofre grande resistência por parte dos republicanos. Eles acreditam que a reforma provoca um excesso de intervenção do governo no sistema de saúde, não resolve o problema da inflação nos custos com a assistência médica, nem combate o excesso de processos contra erros médicos.

Os mais à esquerda tampouco estão satisfeitos. Muitos deles queriam que o governo aprovasse um plano de saúde estatal. Mas, como alertou Howard Dean, ex-presidente do comitê democrata, é melhor aprovar uma legislação razoável do que nada.

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