Reformas chave dependerão de duras negociações

O candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Enrique Peña Nieto, ganhou as eleições presidenciais de ontem no México, segundo pesquisas de boca de urna encomendadas pelos principais jornais e tevês do país. Pesquisas divulgadas pela TV Once, pelo jornal El Universal e pelo grupo Milenio indicaram que Peña Nieto obteve 42% dos votos, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, 31%, e a candidata governista, Josefina Vázquez Mota, 23%.

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL, NUEVO LAREDO, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h00

O Instituto Federal Eleitoral divulgaria os resultados de uma contagem rápida às 23h45 locais (1h45 em Brasília). Mas as sondagens já davam como certa a volta do PRI ao poder 12 anos após um polêmico regime de mais de sete décadas. Josefina, candidata do Partido Ação Nacional, reuniu a imprensa para admitir a derrota.

Os mexicanos foram às urnas ontem, sob forte esquema de segurança por causa da violência do narcotráfico. Longas filas foram formadas diante dos centros eleitorais e poucos incidentes foram registrados.

Cercado por centenas de seguidores, Peña Nieto, um advogado de 45 anos, votou em seu povoado natal de Atlacumulco, perto da capital. Com ar de vitória, ele disse esperar "que o povo do México seja o vencedor".

Em um país em que o voto não é obrigatório, a presença do pedreiro Juan Castellanos Portales, de 70 anos, no coreto da Praça Hidalgo, em Tamaulipas, a três quadras de onde um carro-bomba explodiu na sexta-feira, tinha sua carga de simbolismo. Seu voto, em meio ao de 80 milhões de mexicanos aptos a escolher presidente, parlamentares, seis governadores e prefeitos, era um sinal da expectativa que o país tem sobre esta votação.

Castellanos mora em Laredo, cidade americana com a qual Nuevo Laredo faz fronteira - elas foram divididas em 1848, no acordo que deixou com os EUA vários Estados mexicanos. Mudou-se para lá atrás de emprego há 40 anos, quando os dois lados eram pacíficos. Agora, não gosta de atravessar a fronteira. Acha que está "cada vez mais arriscado".

"Só vim porque precisamos dar um jeito neste país. Infelizmente, tenho família que não consegui levar para o outro lado, que ficou. Cada vez que há um tiroteio ligo desesperado para saber como estão. Outros lugares têm violência, mas não como aqui", afirma, ajeitando o chapéu.

A fronteira de Nuevo Laredo responde por 60% das exportações mexicanas para os EUA e é hoje - com o aumento da vigilância sobre Tijuana e Ciudad Juárez - a principal rota terrestre de drogas entre os dois países. A cidade é um microcosmo do país no que se refere à disputa pelo poder entre os carteis que mais debilitaram as instituições mexicanas. As execuções, torturas e decapitações são consequência direta da disputa entre Los Zetas e o cartel de Sinaloa.

"Entre os dois, a população prefere que ganhe o de Sinaloa. Eles não se metem no trabalho de ninguém, não extorquem dinheiro de comerciantes. Claro que não é bom estar de nenhum lado, mas neste caso a gente tem de escolher a quem proteger e a quem denunciar. Denunciar é modo de dizer, pois ninguém fala nada por telefone", diz o motorista Hernán Izquierdo. O fenômeno descrito por Izquierdo é confirmado pelo especialista em segurança Alejandro Hope. "Laredo é uma das duas saídas que Los Zetas têm aos EUA para escoar drogas. Eles não a podem perder, mas parecem debilitados em termos de popularidade", avalia.

Cenário: Miguel Ángel Gutiérrez / Reuters

O Congresso do México poderá ser outra vez centro de tortuosas negociações, o que provocará a demora na aprovação de reformas chave para o país, por causa de uma maior presença da esquerda e posições divergentes sobre temas controvertidos no Partido Revolucionário Institucional (PRI), o favorito para vencer as eleições.

Analistas e líderes políticos acreditam que a segunda economia da América Latina necessita de reformas profundas para poder impulsionar seu crescimento e reduzir a pobreza, que afeta quase a metade de seus 112 milhões de habitantes. A economia do México cresceu uma média de 2% na última década, período no qual muitos países da região mostraram taxas de expansão muito maiores que lhes permitiram mostrar melhores indicadores sociais.

Enrique Peña Nieto, o candidato favorito, quer permitir investimentos privados na estratégica petrolífera estatal Pemex - um tema muito sensível, pois é a empresa que sustenta a economia do país. Ele também quer fazer uma reforma fiscal ampla para impulsionar a economia e elevar a arrecadação tributária, uma das mais baixas da América Latina.

No entanto, o recente avanço nas pesquisas da esquerda, tradicionalmente relutante às reformas, tornará difícil que um governo do PRI obtenha uma ampla maioria no Congresso para impulsionar esses projetos e possivelmente dependa do governista Partido Ação Nacional (PAN).

Atualmente, a esquerda é a terceira força na Câmara e no Senado; o PRI tem maioria relativa na Câmara e é a segunda força no Senado. O PRI sozinho não alcançaria a metade dos assentos no próximo Congresso e necessitará de seu aliado Partido Verde para votar algumas reformas e de outros partidos para mudanças Constitucionais que exigem dois terços dos votos, segundo as mais recentes pesquisas.

Em 2008, alguns deputados do PRI uniram-se ao esquerdista PRD para bloquear partes de uma reforma de Felipe Calderón com o objetivo de atrair participação privada para a Pemex. A reforma foi aprovada após vários meses de debates e reuniões com especialistas e em meio a protestos nas ruas, pois incluía contratos com empresas privadas para exploração e produção. Mas ela resultou insuficiente para as necessidades de investimento da Pemex que, com muitas dificuldades, conseguiu há três anos estabilizar sua produção, mas não atender o necessário.

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