Reformas em Cuba atraem brasileiros

Mudança econômica. Empresas do Brasil acompanham de perto guinada que Raúl planeja na economia e já buscam mais espaço no mercado cubano; Itamaraty quer auxiliar governo castrista a promover 'empreendedorismo' e defende aproximação política

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Cubanos que forem às lojas estatais de Havana comprar sandálias Havaianas não encontrarão mais os calçados empilhados em prateleiras padronizadas, como há dois meses. Agora, "las legítimas" estão penduradas num display, colorido e modernoso, da marca. A mudança seria banal em qualquer lugar do mundo. Mas na ilha socialista não é, dizem empresários brasileiros de olho na iminente mudança estrutural da economia cubana.

Em quatro meses, o presidente Raúl Castro liberalizou 178 atividades de trabalho, anunciou o corte de 500 mil cargos públicos (um décimo do total), e prometeu apoiar pequenas empresas e reformar o sistema tributário. Externamente, há um encontro de interesses: tanto Raúl quer atrair negócios quanto empresários querem acesso ao promissor, mas ainda inóspito, mercado cubano. O Brasil entraria aí.

"Os cubanos estão ficando mais agressivos e o Brasil quer responder a essa demanda", afirma Maurício Borges, diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), do governo federal.

Além da mudança na apresentação em lojas, as Havaianas ganharam a bênção de Raúl para veicular dois spots publicitários em uma rádio. A entrega de brindes também foi liberada.

"Não há preconceito ideológico. Cuba tem uma demanda altíssima e é promissora para qualquer firma séria do Brasil", diz Jorge Miranda, da Rolldey, companhia catarinense que acaba de fechar um contrato de US$ 5 milhões para fornecer painéis de madeira a empresas cubanas (estatais, claro) de construção civil.

A Apex levou 27 empresas brasileiras para um evento em Havana, na semana passada, esperando que a viagem rendesse US$ 29 milhões em negócios. Ao final, deu US$ 48 milhões. O Brasil é o oitavo fornecedor de bens e serviços a Cuba e Borges diz que o País subirá rapidamente na lista em um futuro próximo.

Para o embaixador do Brasil em Havana, José Felício, empresários brasileiros estão se beneficiando da "avenida política aberta pelo governo". O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve três vezes em Havana - a última delas, marcada pela comparação que fez entre presos de consciência da ilha a criminosos comuns brasileiros - e o Itamaraty quer que o Brasil tenha um papel decisivo em uma eventual abertura econômica de Cuba.

Em setembro, o chanceler Celso Amorim foi a Havana entregar uma carta a Raúl, na qual Lula oferecia apoio para desenvolver o "empreendedorismo". Na semana passada, uma missão a Cuba de vários ministérios - Casa Civil, Saúde, Ciência e Tecnologia, Comunicações e outros - deu continuidade à iniciativa.

O Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), que abriu em 2008 uma linha de crédito especial de US$ 150 milhões para Cuba, promete novas ações "em breve" para impulsionar negócios brasileiros na ilha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.