Raul ARBOLEDA / AFP
Raul ARBOLEDA / AFP

Refugiadas na Colômbia, venezuelanas se prostituem para sustentar família 

Elas deixaram filhos e parentes para trás que dependem de seu dinheiro para sobreviver; muitas têm vergonha de contar para a família o que fazem

O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2018 | 19h50

CALAMAR, COLÔMBIA - Mães, filhas, irmãs. Elas fugiram da Venezuela e, sem documentos para trabalhar legalmente, terminaram se prostituindo em bares na Colômbia para sustentar a família que passa fome. Alegría é professora, mas trabalha em um bordel. Na Venezuela, seu salário de 312 mil bolívares (menos de US$ 1) não dava mais para comprar macarrão, conta a imigrante de 26 anos.

Em fevereiro, ela partiu para a Colômbia. Durante três meses, foi garçonete em Arauca em troca de comida e hospedagem, mas sem pagamento. Seis de seus parentes, incluindo seu filho de 4 anos, sobrevivem na Venezuela graças a ela.

Depois, ela se mudou para Calamar, uma aldeia de selva no sul da Colômbia, marcada por seis décadas de conflito armado. Corredor de cocaína, é um bastião de dissidentes das Farc e de narcotraficantes do clã do Golfo. Alegría, apelido que escolheu com ironia, se prostitui com outras nove mulheres em um dos bares da cidade de 3 mil habitantes. Cerca de 60 venezuelanas fazem o mesmo trabalho em Calamar. 

Nas noites boas, ganha de US$ 30 a US$ 100 dólares – mais do que ganharia em um mês na Venezuela. “Nunca passou pela minha cabeça me prostituir. Fiz em razão da crise”, diz Joli, de 35 anos, com a voz embargada. Em 2016, ela perdeu o emprego como distribuidora de jornais na Venezuela. “Não havia mais papel para imprimi-los.” Por isso, deixou os três filhos com a mãe e, sem passaporte, cruzou a fronteira apenas com a roupa do corpo.

Na Colômbia, sem conseguir trabalho, optou pela prostituição em Bucaramanga, a cerca de 600 km de Calamar, onde sua sobrinha Milagro, de 19 anos, trabalha desde junho. “No começo, me senti mal”, lembra Milagro, que sustenta seus irmãos e seu bebê de 2 anos.

Todas têm vergonha de contar a verdade para suas famílias. “Eles não sabem o que eu faço”, diz Alegría, que contou para a mãe que trabalha em uma padaria. Em razão da presença de homens armados na área, essas mulheres sofrem de “ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós-traumático”, explica Jhon Jaimes, psicólogo da ONG Médicos do Mundo (MDM), que atua na região.

Segundo ele, elas estão expostas a infecções, dengue, malária e doenças venéreas. Várias engravidam, porque alguns clientes exigem relações sem proteção. 

Mãe de três filhos, Patrícia, de 30 anos, também é prostituta em Arauca. Recentemente, foi espancada e estuprada por um cliente bêbado. “Há clientes que te tratam mal e isso é horrível”, diz. “Todo dia peço a Deus que eles sejam bons comigo.”

Nicolás Dotta, coordenador do MDM, enfatiza a “vulnerabilidade” dessas mulheres sexualmente exploradas. “Se há algo que caracteriza a crise migratória é como as redes de tráfico operam e o alto número de mulheres venezuelanas que estão sendo vítimas dessas redes, não apenas na Colômbia, mas em outros países da região.” / AFP

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