Refugiado quer morrer na terra natal

Hussin Enabi, expulso de sua cidade na criação de Israel, espera um acordo de paz para deixar o bar no campo de Al-Am'Ary

, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

O conjunto de vielas em que vive Hussin Enabi, de 71 anos, ganharia no Brasil o nome de favela. Falta sinalização e os automóveis avançam até onde a largura da rua permite. Crianças dão piruetas nas barras de metal de um carrinho de lixo. Empurrado por outra, o bólido levanta a poeira - quase não chove - que suja o bar de Enabi. "Falta educação às crianças hoje", resmunga o refugiado, que em 1948 foi obrigado a sair de sua cidade natal, Enaba. Nesse cenário de guerrilha urbana que é campo de Al-Am"ary, em Ramalah, vivem 10,5 mil refugiados. A taxa de desemprego é de 27%.

O propalado crescimento econômico da Cisjordânia - 16% em 2010, segundo o FMI - não se nota aqui. O loteamento da região em áreas sob um controle variável de Israel (ver mapa) agravaria a desigualdade, segundo moradores. Nas regiões em que a segurança ainda é compartilhada com Israel, dizem, falta coordenação. Se o bar de Enabi é assaltado, por exemplo, soldados israelenses devem ser avisados e a polícia demora a chegar. Mais crimes, menos investimento.

Embora o sábado seja um dia de descanso para os muçulmanos, Ebadi abre seu comércio. Tem 19 filhos espalhados por três casamentos e ainda precisa sustentar alguns. Garante não ter sido informado da melhora econômica da Cisjordânia. "Para mim as coisas só pioram", diz, entre uma vassourada e outra na rua de chão batido. O campo de Al-Am"ary é conhecido pelo tradicional time de futebol. Mas também pela venda de armas e por abrigar radicais islâmicos.

No campo de Jenin, com 16 mil refugiados, no norte da Cisjordânia, a situação é parecida. Segundo o prefeito Qadoura Mousa, o desemprego, que chegou a 48%, baixou para 32%, graças à abertura de uma passagem comercial para Gilboa, no lado israelense. Ao notar a relação entre pobreza e radicalismo, os governantes das duas cidades criaram um pacote turístico em que o visitante passa dois dias em cada lado. Uma aliança emblemática, já que em 10 dias de combate em Jenin, em 2002, morreram 52 palestinos e 23 israelenses. Cultivou-se ódio mútuo. "Fui líder do Fatah na primeira intifada. Se posso esquecer, todos podem. Nossas portas estão abertas. Menos para os colonos judeus, que não reconhecem nosso direito a existir", ressalta Mousa.

O projeto Jenin-Gilboa se beneficia da facilidade dos estrangeiros para cruzar a fronteira, o que israelenses e palestinos não têm. Enabi ainda espera um acordo que lhe permita passar a Israel e morrer na cidade natal. Após 62 anos, acha que "lá vai ser melhor".

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