Javed Tanveer/AFP
Javed Tanveer/AFP

Refugiados afegãos no Paquistão temem voltar para as mãos do Taleban

Mais de 38 mil afegãos deixaram o país temendo a violência pós-retirada americana e a perseguição do grupo fundamentalista; vistos podem expirar

Carolina Marins, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2021 | 05h00

A vida do afegão Esmat Roshangar, de 21 anos, era bastante agitada, com faculdade, emprego, vida social e trabalhos voluntários. Nos últimos anos, seus maiores orgulhos eram os projetos voluntários em prol do empoderamento de jovens, em especial meninas, por meio da educação e dos esportes. Ele conta que se sentia útil para seu país, até que em 15 de agosto o Taleban tomou o poder no Afeganistão. Agora, sua vida se transformou em uma constante busca por segurança.

No Paquistão, para onde fugiu, lida com o medo de ser deportado de volta ao Afeganistão a partir de janeiro de 2022, quando seu visto expira. O caso de Roshangar é um entre os mais de 37 mil afegãos que atravessaram a fronteira fugindo do Taleban, segundo a Acnur, a agência da ONU para refugiados. A maioria emigrou temendo a violência e ameaças do grupo radical islâmico. Agora, eles tentam encontrar uma saída para não ter de retornar. 

Uma vez no Paquistão, esses refugiados enfrentam dificuldades em encontrar abrigo, comida e atendimento médico, segundo a ONU. 

A situação humanitária no Afeganistão piorou muito nos quatro meses após a retirada americana, o que levou os Estados Unidos a considerarem aliviar algumas das sanções ao Taleban como forma de resposta a essa crise. Nos últimos meses, a Acnur tentou intermediar esforços junto aos vizinhos do Afeganistão para amenizar o impacto desse fluxo migratório. 

Roshangar havia acabado de concluir o curso de Administração na Universidade de Herat quando o grupo radical entrou no palácio presidencial em Cabul. Três dias antes, o Taleban já havia tomado a cidade de Herat, localizada a 600 km da capital. Mas meses antes da queda de Cabul acontecer para o mundo, Esmat já assistia os distritos ao redor caírem um após outro.

“Antes de agosto de 2021, eu fiz muita coisa. Fiz o meu melhor para ajudar jovens afegãos a se empoderar. Trabalhei por empoderamento feminino, por paz, por proteção aos direitos humanos. Estou muito feliz por ter feito a minha parte pelo meu lindo país”, conta. Mas este mesmo trabalho que o enche de orgulho é o que hoje o coloca na mira dos taleban.

Antes mesmo de agosto, sua família recebia ligações, cartas e avisos pessoais com ameaças. Grande parte de seus trabalhos voluntários estava ligada com a Embaixada dos Estados Unidos no Afeganistão, o que torna Roshangar uma das pessoas sob risco de retaliação por ser visto como um aliado do governo americano nos últimos anos. As ameaças ocorriam desde 2018, mas se tornaram insustentáveis depois de o Taleban assumir o poder.

“Nossa casa foi uma das primeiras atacadas pelo Taleban em Herat em 10 de agosto. Meu pai foi baleado e meu irmão mais novo foi ferido no ataque.” Os dois sobreviveram. Depois do ataque, a família fugiu para a Província de Ghor, onde Esmat nasceu e viveu até seus 12 anos. O rapaz ainda guarda vídeos e fotos da casa em Herat cheia de marcas de balas.

Roshangar também não se sente seguro no novo país. “Sou um muçulmano hazara e xiita, uma minoria étnica que tem sido morta e perseguida durante anos no Paquistão”, explica. 

Além disso, ele convive com o risco de ser deportado para o Afeganistão a partir de janeiro. “Estou ficando sem dinheiro e não poderei mais ficar. Vendi meus pertences pessoais para ter dinheiro para a ida ao Paquistão.”

Quatro meses de Taleban no poder, a situação de Esmat é semelhante à de milhões de afegãos após a queda de Cabul. Uma vida agitada de estudos, trabalhos e passeios com os amigos, se transformou em uma angustiante espera por mudanças. No caso de Roshangar, uma espera perigosa. 

“Nenhum governo, incluindo nossos vizinhos, disseram algo. O mundo está em silêncio e isso é tão injusto”, desabafa.

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