Federico Rios Escobar/The New York Times
Federico Rios Escobar/The New York Times

Refugiados arriscam a vida nos Andes

Sem dinheiro para passagem de ônibus, muitos fogem a pé da Venezuela e enfrentam uma caminhada a mais de 3 mil metros de altura

Nicholas Casey e Jenny Carolina González / The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 05h00

PAMPLONA, COLÔMBIA - A crise econômica que tragou a Venezuela sob o comando do presidente Nicolás Maduro provocou um êxodo desconcertante. Os danos econômicos estão entre os piores da história recente da América Latina e mais de 3 milhões de pessoas deixaram o país nos últimos anos – grande parte a pé.

Os venezuelanos fogem da escassez de alimentos, de falta de água, de luz e de remédios, bem como da repressão do governo, que deixou mais de 40 mortos nas últimas semanas. Arrastando as malas, alguns caminham pelas rodovias porque o salários foi dizimado pela hiperinflação e a passagem de ônibus ficou fora de alcance. Outros tentam pegar carona por milhares de quilômetros até chegar ao Equador ou ao Peru.

Mas não importa o destino, a grande maioria passa por essas estradas traiçoeiras na Colômbia: uma viagem de 200 quilômetros por uma passagem de quase 3.700 metros no alto da Cordilheira dos Andes. “É o lugar mais frio que conheci na minha vida”, disse Fredy Rondón, que veio de Caracas, com uma única bolsa. Agora, ele estava sem fôlego a 3.200 metros de altura, com uma estepe sem árvores diante dele. “Achei que poderia enfrentar o frio, mas isso é demais”, disse.

Sua disposição revela o desespero. O país passa por sua mais profunda instabilidade política em uma geração, com dois homens reivindicando a presidência. “Estamos todos com medo de que as coisas fiquem feias”, disse Norma López, que caminhava com seus cinco filhos e uma criança de 6 dias. 

Apoio

A maioria dos venezuelanos chega primeiro a Cúcuta, na fronteira com a Colômbia. Nos arredores da cidade, há um estacionamento onde os voluntários se reúnem às 6 horas para oferecer aos migrantes um lugar para tomar banho, uma tigela de aveia e casacos para as crianças.

A 2.300 metros acima do nível do mar, Martha Socorro Duque passou meses observando os imigrantes passarem por sua sala de estar em Pamplona. Eles procuravam comida e abrigo em uma cidade com pouco para oferecer. “As pessoas chegavam com os sapatos destruídos”, disse. “Mas o mais difícil não foi ver os sapatos, foi ver os pés com lacerações e bolhas cheias de sangue.”

A caminhada continua a partir de Pamplona. A mais de 3.000 metros, Alexis Ron e seu cunhado andavam com mochilas nos ombros, uns 300 metros à frente das mulheres, que carregavam malas e suprimentos. Eles haviam deixado a Venezuela meses atrás, mas disseram que a vida miserável que encontraram na Colômbia os estimulou a continuar caminhando. Ron, de 40 anos, disse que costumava consertar carros de luxo em Caracas. “Eu podia desmontar um carro de trás para a frente”, afirmou. “E poderia devolvê-lo montado, sem faltar um único parafuso.”

Mais adiante, a estrada se torna plana, a 3.400 metros, revelando um vasto planalto onde apenas juncos cresciam. Génesis Zambrano, de 20 anos, oito meses de gravidez, segurava a outra filha pequena. “Minhas costas”, disse, apontando para onde sentia dor.

Ela queria descansar em Cúcuta antes de fazer a viagem para Bogotá, onde encontraria seu pai. Mas, em vez disso, passou os dias observando a filha recém-nascida, Yeanis, esmorecer lentamente: havia comida para comprar na Colômbia, mas nenhum dinheiro para alimentar sua filha, a não ser uma garrafa cheia de água e arroz. “A menina chorou, mas não tinha lágrimas.”

Viagem a pé

Yeanis passou nove dias em um hospital em Cúcuta sendo tratada por anemia e infecção respiratória. Quando os sinais vitais da filha voltaram, ela decidiu partir para Bogotá a pé.

A estrada parecia interminável. Mas perto do cume, um milagre aconteceu: um caminhão vazio encostou. “Quando você não tem carga, deve levá-los”, disse o motorista, que pediu para não ser identificado. Com um súbito assobio, o caminhão acelerou e a paisagem da tundra transformou-se subitamente em pastagens de vacas, riachos e sinais de trânsito.

No interior, as pessoas se amontoavam, tentando se aquecer. Lá estavam Marian Jiménez, que havia torcido o pé, e Jeremy Hidalgo, que andara quatro dias a pé. O sol começou a se pôr e a carroceria ficou lotada quando o motorista pegou outra dezena de migrantes. “Devemos agradecer ao Deus por essa bênção”, alguém gritou. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

 

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