JAMIL CHADE/ESTADAO
JAMIL CHADE/ESTADAO

Refugiados comparam campo de internamento na Hungria à Guantánamo

Imigrantes dizem que se sentem aprisionados e se queixam da falta de comida, água e cobertores

O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 09h16

ROSZKE, HUNGRIA.- "Sinto-me como um prisioneiro", disse Rachid, atrás da dupla cerca no campo de internamento de Roszke, ao sul da Hungria, por onde continuam a entrar ininterruptamente refugiados de países em guerra civil.

Rachid é sírio, e junto a ele chegam afegãos, bengaleses, paquistaneses e iraquianos. Eles se queixam de não ter comida suficiente, água ou cobertores, que não podem tomar banho, que falta cigarro (um pacote lançado sobre a cerca por um jornalista se transformou em um valioso troféu), e que ninguém diz até quando estarão retidos.

"É Guantánamo", comparou outro refugiado, enquanto atrás se ouvia um coro de vozes infantis que imploravam por comida e para sair dali.

A questão é complicada, já que a Hungria não faz mais do que aplicar a legislação comunitária de registro de refugiados, que permite restringir seus movimentos enquanto durar o processo.

Contudo, a Anistia Internacional denunciou que o procedimento não está sendo aplicado de forma adequada e que questões básicas estão sendo descumpridas, como informar apropriadamente os refugiados, que vão à Europa fugindo da violência e se veem presos atrás de uma cerca.

O tratamento recebido destoa muito do que caberia a um país europeu supostamente comprometido com os direitos humanos.

Um grupo de afegãos fugiu ontem do campo, provocando confrontos com a polícia, que não chegou a usar balas de borrachas ou gás lacrimogêneo. Mais tarde, cerca de 300 refugiados recém-chegados à Hungria fugiram para a estrada gritando "Budapeste, Budapeste", e foram perseguidos pela polícia.

Rachid e seus companheiros garantem que não foram maltratados fisicamente pela polícia, mas que são desrespeitados e insultados.

A direção geral da polícia e o escritório estadual de imigração não quiseram comentar sobre as denúncias dos refugiados.

"Aqui não há sorte, só, talvez, esperança", respondeu Rachid. Mas se ele e seus companheiros se queixam porque não podem sair, Massoud, outro sírio, protesta porque não pode entrar. Ele chegou à Hungria há quatro dias, e está dormindo na rua com sua família e amigos, entre eles crianças pequenas.

Massoud não pode entrar no campo de retenção porque disseram a ele que está cheio. Agora, não sabe como continuar a viagem, mas abandonar o mais rápido possível a Hungria e seguir rumo a seu objetivo, a Suécia, onde tem um irmão.

"Mais tarde, mais tarde", contou quando pediu para entrar e poder dormir pelo menos em uma barraca. "Quando? Em dez dias, duas semanas, depois que as crianças tiverem morrido?", questionou, indignado.

"Na Hungria há problemas grandes. Viemos pela Macedônia, pela Sérvia. Sem problemas. Desde que chegamos aqui, só problemas", lamentou.

Enquanto isso, o governo húngaro continua firme em sua postura de linha dura contra a onda de refugiados.

"Os húngaros são hospitaleiros, mas tomarão as ações mais duras possíveis contra aqueles que tentarem entrar na Hungria ilegalmente. A entrada ilegal no país é um crime punido com a prisão", advertiu o governo húngaro nos textos que está distribuindo aos países pelos quais os refugiados passam. /EFE


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