'Refugiados da violência' no México migram para El Paso, nos EUA

O muro de aço e o reforçado sistema de segurança, em um dos limites entre os EUA e o México, separam uma das mais seguras cidades americanas daquela considerada como uma das mais violentas do mundo. Em El Paso, nos EUA, cinco assassinatos foram registrados em 2010 enquanto em Ciudad Juárez a guerra entre os cartéis de drogas provocou a morte de 3.111 pessoas.

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h06

Aterrorizada também por sequestros e extorsões, a cidade mexicana recebeu o carimbo de "zona de guerra" e assiste à migração de empresários para a vizinha mais segura.

A nova onda de migração ganhou o nome de "mexodo" - uma mescla das palavras México e êxodo. Cerca de 15 mil empresários e profissionais qualificados, com suas famílias, cruzaram legalmente a fronteira desde 2008. Naquele ano, estourou a guerra dos cartéis de Sinaloa e de Juárez e começou o período mais sanguinário da história da cidade, a segunda mais industrializada da América do Norte. Juárez só perde nesse quesito para Detroit. Desde então, mais de 7.200 assassinatos apavoraram os 1,3 milhão de habitantes dessa cidade e da região.

"Na época de crescimento nos EUA, recebíamos levas de refugiados econômicos", explicou o prefeito de El Paso, John Cook, com o cuidado de não se valer da expressão "imigrante ilegal", mais comumente usada em seu país. "Agora, recebemos os refugiados da violência. A classe média de Juárez está se transferindo para cá, mas também para Dallas e Nova York. É bom para nós, mas é triste para o México."

A economia da pacata El Paso depende dos 40 mil militares em serviço no Forte Bliss, e a vivacidade de sua área central concorre com a de um cemitério. Sua população não ultrapassa 650 mil habitantes - a metade da de Juárez. Nos últimos três anos, o município americano recebeu entre US$ 250 a US$ 300 milhões em investimentos antes sediados do outro lado da fronteira, segundo Carlos Chavira, presidente da célula de Ciudad Juárez da Confederação Patronal da República Mexicana (Coparmex).

A forte presença militar, a ser elevada com a chegada de mais 10 mil soldados em 2012, é uma das razões para El Paso manter o alto nível de segurança, mesmo com suas ruas mal iluminadas.

Mas não só o Exército está presente. Há mais de dez agências federais de segurança e de inteligência dos EUA, entre as quais a Força Tarefa Conjunta do Norte (JTFN). O relatório de 2011 publicado pela consultoria CQ Press apontou El Paso como a cidade com população superior a 500 mil habitantes mais segura dos EUA, pelo segundo ano consecutivo.

'Mexodo'. Praticamente todos os restaurantes e bares novos de El Paso são resultado do "mexodo", que trouxe também um pouco da vida noturna de Juárez. De seu modesto escritório em El Paso, o empresário Pepe Yanar monitora a rotina de sua fábrica de móveis em Juárez valendo-se de 16 câmeras instaladas em pontos estratégicos.

Yanar migrou para El Paso depois de ter sofrido um sequestro há dois anos (mais informações nesta página).

Mesmo o prefeito de El Paso relatou um episódio curioso de "mexodo". Em 2009, ao retornar a Juárez para pagar os serviços prestados por seu dentista dias antes, Cook encontrou o consultório fechado. O profissional havia abandonado a cidade, apavorado pela violência.

"Aqui, todo mundo tem uma história de terror para contar. Nem tudo é causado pelo narcotráfico. Há bandos de outros tipos de delinquentes apavorando Juárez", afirmou Rosbinda Gusmán, diretora de uma firma de venda de relógios suíços, durante um café da manhã da associação La Red, formada por empresários emigrados de Juárez para El Paso. O sequestro e morte de um primo, em 2009, foi uma das histórias de terror vividas pela família de Rosbinda. Outro episódio, no mesmo ano, envolveu o sequestro de sete pessoas que trabalhavam na mesma clínica de saúde na qual seu marido continua a atuar. A família de Rosbinda instalou-se em El Paso, e seu marido somente vai a Juárez com escolta. "Eu me proibi de ir a Juárez. Mas sinto peso na consciência por viver aqui."

No encontro de La Red, acompanhado pelo Estado, o corretor José Luiz Rojas avisou os colegas que as companhias seguradoras estavam se recusando a cobrir roubos de carros americanos ocorridos em Juárez. La Red foi criada em 2010 por sete empresários com o objetivo de estimular a melhoria de seus negócios e também discutir como contribuir para a redução da violência em Juárez. Hoje reúne 70 filiados. "Juárez e El Paso são cidades irmãs e altamente conectadas, apesar do muro na fronteira. A situação econômica tem melhorado em Juárez, e isso se reflete de forma positiva em El Paso", afirmou Miguel Gómez, presidente da entidade.

Os postos de fronteira entre as duas cidades registram ao ano a movimentação de um total de US$ 70 bilhões, em cargas, e de cerca de 14 mil pessoas por dia. A maioria dos mexicanos que cruza a ponte sobre o Rio Grande (ou Bravo) aguenta mais de duas horas na fila de imigração para alcançar o lado americano.

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