Refugiados desistem do Brasil e voltam ao Afeganistão

Três das cinco famílias de refugiados afegãos que buscaram uma nova vida no Brasil em abril do ano passado estão de malas prontas para voltar à terra natal. Todo o processo de repatriação voluntária está pronto. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) deve liberar as passagens de Porto Alegre para Cabul nos próximos dias.O grupo teve dificuldades de adaptação aos costumes ocidentais e ficou decepcionado com os baixos salários pagos no Brasil. Além disso, ficou sabendo por parentes que a volta já é possível, depois de quase 15 anos de andanças pelo Irã, Índia e Brasil.NaturalSegundo dados repassados pelo Acnur à Central de Orientação e Encaminhamento (Cenoe), a organização não-governamental responsável pelo assentamento em Porto Alegre, 1,8 milhão de refugiados já retornaram ao Afeganistão entre janeiro de 2002 e fevereiro de 2003. "Eles querem retomar suas vidas no Afeganistão depois de terem sido preservados num momento de crise", disse o presidente do Comitê Nacional de Refugiados do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto. Para o advogado Gerson Heemann, da Cenoe, "é natural o retorno (de refugiados) no momento em que a situação do país de origem melhora".O técnico em engenharia Abdul Rahimi, 38 anos, é um dos refugiados que colocam a reconstrução do país como motivo para levar a mulher e os três filhos menores de volta. Em Mazar-e-Sharif ele pode reencontrar o pai doente e retomar a carreira profissional e as atividades políticas que mantinha até 1990. De Porto Alegre, poderá levar na lembrança o trabalho de porteiro de um edifício e alguns passeios pela cidade.SaudadeO comerciante autônomo Abdul Nabizada, 35 anos, já estava se virando no Brasil, vendendo roupas indianas que amigos enviavam de Nova Délhi. Os dois filhos, de 12 e 9 anos, aprenderam rapidamente o português. Mas a saudade falou mais alto. A mulher, Fareba, 29 anos, quer rever a família depois de dez anos distante de Mazar-e-Sharif.Para a família do professor Nesar Fagiri, 57 anos, a passagem pelo Brasil vai significar mais uma divisão. O filho Vali, 27 anos, conseguiu emprego numa tapeçaria de São Paulo e não vai retornar. Mas o patriarca, a mulher Safieh e outros dois filhos, de 18 e 12 anos, partirão para a cidade de Helat. Reencontrarão os três filhos que ficaram no Afeganistão e estarão mais próximos dos dois que vivem no Irã.FicamOutras duas famílias afegãs preferiram seguir buscando a sorte em território brasileiro. O professor Abdul Atbai, 39 anos ainda não conseguiu emprego, mas sua mulher, Roqia, 34 anos, faz sucesso com técnicas indianas de depilação do sobrancelhas num instituto de beleza. Ele diz que por ter perdido tudo no Afeganistão não vê motivos para voltar.Já o motorista Farhad Khazizadah, 38 anos, e a dona de casa Nabila, 25 anos, estão empregados numa escola e vão seguir mais um tempo buscando a adaptação à nova vida.Sem TVDurante os quase 12 meses que ficaram no Brasil, os afegãos reclamaram da falta de aulas de português e de comodidades como aparelhos de televisão. Mas também deixaram transparecer dificuldades para se adaptar a horários e a algumas exigências disciplinares. O professor de português Moacir Gomes Corrêa ficou à disposição na Escola Ana Néri, mas a freqüência dos alunos era irregular.Apesar disso, quase todo o grupo de 23 pessoas já consegue se comunicar com os vizinhos. As crianças falam português com facilidade. Só dois homens e duas mulheres ainda demonstram dificuldades. A maior decepção dos afegãos foi com os salários. Eles chegaram acreditando que receberiam R$ 260 por dia e não por mês. Talvez por isso tenham recusado a maior parte das 267 ofertas de emprego cadastradas pela Cenoe, quase todas na faixa dos R$ 300 por mês.A decisão de voltar também pode estar vinculada ao final da ajuda do Acnur, prevista para este abril. Até agora, cada família recebeu mensalmente R$ 260 por adulto, mais R$ 13 por criança, aluguel, cesta básica, energia elétrica, gás, transporte escolar e remédios.

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