REUTERS/Fabrizio Bensch
REUTERS/Fabrizio Bensch
Imagem Adriana Carranca
Colunista
Adriana Carranca
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Refugiados e criminalidade

Há um ano, Merkel tinha mais popularidade do que qualquer chanceler antes dela. O ponto de virada foi o dia em que anunciou a decisão de abrir as fronteiras para milhares de refugiados, no auge do êxodo à Europa catapultado principalmente pela guerra na Síria

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2016 | 05h00

O partido de Angela Merkel sofreu uma derrota histórica nas eleições do último domingo, no Estado de Mecklenburg-Vorpommern. Embora seja um Estado pequeno, com apenas 1,6 milhão de habitantes, o resultado tem um peso simbólico importante. Foi a primeira vez no pós-guerra que um partido de extrema direita, o AfD (Alternativa para a Alemanha), obteve mais votos do que o UDC (União Democrata Cristã), de centro-direita.

Há um ano, Merkel tinha mais popularidade do que qualquer chanceler antes dela. O ponto de virada foi o dia em que anunciou a decisão de abrir as fronteiras para milhares de refugiados, no auge do êxodo à Europa catapultado principalmente pela guerra na Síria. 

“Políticas para refugiados de Merkel dividiram o país e o partido de direita populista AfD está rapidamente ganhando suporte”, escreveu a Der Spiegel, em editorial publicado ontem, sobre a ascensão do AfD. Três anos após ser fundado, sob a bandeira de oposição ao euro, o partido tem hoje representantes em nove parlamentos estaduais. 

O AfD, que já se julgava liquidado, viu na crise a oportunidade de recobrar relevância, explorando o medo da população com campanhas apelativas e xenófobas anti-imigração. 

Um ano depois após o êxodo à Europa chegar ao ponto mais alto em trinta anos, qual é o impacto da chegada de mais de um milhão de refugiados ao país desde 2015?

Em um balanço publicado na semana passada, também pela Der Spiegel, estatísticas mostram que, um ano após a decisão de abrir as fronteiras, a probabilidade de um refugiado cometer um crime não é maior que entre a população local. Nos primeiros três meses de 2016, o número de crimes atribuídos a imigrantes caiu em 18% em relação ao ano anterior, embora a população estrangeira tenha aumentado.

O ataque de um bando descrito como sendo “de procedência árabe ou do Norte da África”, que agiu de forma coordenada contra mulheres na noite de réveillon perto da estação de trens de Colônia, assustou os alemães e desencadeou um debate inflamado sobre a recepção de refugiados, usado largamente pelo AfD para inflar sua popularidade. 

Mas, ao longo de um ano, não houve aumento real na criminalidade que pudesse ser atribuída a imigrantes e refugiados na Alemanha. O atentado a bomba que matou uma pessoa e feriu ao menos doze perto de um festival de música em Ansbach e o ataque a passageiros de um trem para Wurzburg, que feriu quatro pessoas, acenderam o alarme sobre a ameaça do terrorismo na Alemanha. Mas nenhum dos criminosos estava entre os refugiados que chegaram ao país na recente onda de imigração. 

A preocupação maior das autoridades é com o recrutamento, por grupos extremistas, de jovens na Alemanha, mas tanto alemães como estrangeiros. No último ano, nenhum crime grave, como estupro, terrorismo ou assassinato, cometido por pessoas com visto especial de refugiado ou que aguardam decisão sobre asilo foi registrado.

No caso mais grave, em julho, quando um estudante alemão-iraniano de 18 anos, nascido em Munique, abriu fogo em um shopping em Munique, deixando nove mortos, o crime não foi tratado como terrorismo. O atirador, segundo as autoridades, era um estudante obcecado por armas e assassinatos em massa – os policiais encontraram em seu quarto uma série de recortes de jornais sobre casos como o massacre de 77 pessoas pelo norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik, em 2011, no mesmo dia e mês que o jovem escolheu para o ataque ao shopping. Na época, Breivik confessou que sua motivação era conter a imigração.

Estatisticamente, a crise dos refugiados na Alemanha só resultou em aumento de crimes contra eles próprios, aponta o levantamento. Entre janeiro e agosto, foram registrados 665 contra abrigos para refugiados no país. 

Em 2015, foram 1.031, número cinco vezes maior do que no ano anterior. No Estado de Mecklenburg-Vorpommern, que deu vitória à extrema direita nas eleições de domingo, foram registrados sete ataques contra abrigos para refugiados.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Alemanha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.