Gabriella Demczuk/The New York Times
Gabriella Demczuk/The New York Times

Refugiados iraquianos lidam ao mesmo tempo com lado solidário e intolerante dos EUA

Família que vive em Maryland recebeu um bilhete deixado na porta de sua casa com os dizeres: ‘Vão embora, terroristas, ninguém quer vocês por aqui’; após episódio, alguns vizinhos ficaram revoltados com atitude preconceituosa e se mostraram solidários aos imigrantes

Adeel Hassan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2016 | 10h48

MARYLAND, EUA - Ra'ad e Hutham Lalqaraghuli já não sabem de qual versão dos EUA fazem parte. Do país cheio de ódio que enfrentaram algumas semanas antes da eleição presidencial, quando alguém deixou um bilhete na porta de sua casa que dizia: "Vão embora, terroristas, ninguém quer vocês por aqui"? Ou da nação generosa com estranhos simpáticos que ouviram falar de seus problemas e os encheram de presentes e cartões com mensagens positivas?

A vitória do magnata republicano Donald Trump nas eleições agravou ainda mais as dificuldades. Após um ano vivendo nos subúrbios de Maryland, após chegar com os quatro filhos como refugiados do Iraque, a família se vê comparando as ameaças das quais fugiram àquelas que ainda podem surgir.

O casal não dormiu na noite da votação após acompanhar a cobertura dos resultados pela televisão. "Estamos morrendo de medo e preocupação. Não sabemos o que isso vai acarretar", confessou Ra'ad.

A dúvida dele reflete a experiência de muitas outras famílias de refugiados e americanos muçulmanos. Há algumas semanas, da mesma forma que defensores denunciaram um aumento drástico no número de ataques e atos de intimidação contra negros, muçulmanos e imigrantes, muitos desses episódios foram seguidos por atos públicos de solidariedade.

Segundo o Southern Poverty Law Center, gestos de ódio e intimidação ocorreram no país todo durante a campanha e aumentaram significativamente desde que Trump foi declarado presidente. Mas a oscilação entre aceitação e rejeição pode ser particularmente confuso para recém-chegados como os Lalqaraghuli.

Dundalk, seu novo lar, é um subúrbio de Baltimore, uma das muitas comunidades operárias onde as brigas em razão de identidade se tornaram mais intensas. Ra'ad, 43 anos, disse que, a princípio, se mostrou entusiasmado com o novo país. "Quando cheguei aos EUA, estava superfeliz. É onde sempre sonhei criar meus filhos."

Ele já havia convivido com americanos antes. Formado pela Universidade de Mossul, em 2004, começou a trabalhar como engenheiro de grupo para empresas americanas e o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA para ajudar a reconstruir o país depois da invasão. Porém, o trabalho com estrangeiros também lhe rendeu a atenção indesejada de grupos terroristas e, por isso, teve de passar um inverno inteiro dormindo escondido na floresta, enquanto a mulher e os filhos ficaram com a família dela.

Como os militantes do Estado Islâmico não conseguiram pegá-lo, sequestraram então dois de seus irmãos mais novos e um mais velho. "Eles queriam trocar os três por mim." Tanto ele como seu pai acharam que era blefe, mas todos acabaram mortos.

Seu trabalho em nome do governo americano garantiu a ele e a sua família proteção humanitária e vistos especiais de imigrantes. Advogados em Nova York deram apoio ao seu pedido, que foi aprovado rapidamente, até que, em 2015, uma milícia bombardeou sua casa. "Perdi tudo", resumiu ele.

No aeroporto de Bagdá, a caminho dos EUA, ele ainda temia estar sendo seguido. Tudo o que tinha era a passagem, o passaporte, US$ 100, a mulher e os quatro filhos.

Betsy Fisher, diretora do Projeto Internacional de Assistência a Refugiados de Nova York, foi quem realocou a família. "Quem entra neste país como refugiado está fugindo do terrorismo, não pode viver em um lugar violento", comentou. Em referência ao bilhete colocado na porta da casa da família, ela acrescentou: "Além de ser um ato horroroso, deveria ser extremamente constrangedor para todos os americanos o fato dessa família ser ameaçada, afinal se ela está aqui é porque prestou serviço ao país."

Segundo defensores como o Conselho das Relações Americanas-Islâmicas, que está ajudando a família, muitos refugiados relutam em denunciar os crimes de ódio dos quais são vítimas por medo de uma retaliação ainda maior.

Contudo, depois do bilhete e ainda com o desenho grosseiro de uma mulher usando o hijab, Lalqaraghuli avisou a polícia. Os agentes descobriram que o recado havia sido escrito por uma vizinha de 14 anos e que alguns oficiais tinham falado com ela e seus pais, mas decidiram que nenhuma lei havia sido infringida. A família não respondeu ao pedido de entrevista.

Ainda assim, o episódio foi suficiente para desencadear um esforço para conter a intolerância local. Alta Haywood, professora aposentada que mora em Perry Hall, Maryland, mandou uma cesta de frutas para a família com uma nota que dizia: "Espero sinceramente que as outras pessoas da região mostrem que podem ser gentis e abertas".

Já Lindsay Fitch decidiu enviar aos recém-chegados uma torta de maçã e outra de abóbora, feitas em casa, e um cartão no qual colocou uma foto de sua família e um convite para uma reunião. "Quero lhes dar as boas-vindas a Baltimore. Há muita gente aqui disposta a recebê-los de braços abertos. Espero sinceramente que vocês se sintam em casa e se lembrem de nós quando passarem por situações ruins."

Ra'ad, que é motorista, se diz muito agradecido pelas demonstrações de solidariedade, mas confessa que depois da vitória de Trump é difícil acreditar que a aceitação seja a força predominante da nação.

Ele perdeu duas semanas de trabalho depois do incidente do bilhete porque seus filhos só se sentiam seguros com sua presença. O mais novo, Abdullah, de 5 anos, não dorme mais no próprio quarto, somente no dos pais. "Assim que for possível, eu e a minha família vamos começar a procurar casas em outra cidade, talvez até outro Estado."

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