Refugiados lutam pela sobrevivência

Nyapal Nyechoat está sentada, olhos fechados, a filha morta enrolada em um cobertor ao seu lado. Não sabe o que fazer com o corpo. Entre os muros altos da base da missão de paz da ONU em Juba 28 mil sul sudaneses desesperados buscaram refúgio, fugidos dos conflitos nos arredores. São homens, mulheres e crianças da etnia nuer, de Riek Marchar, o vice-presidente deposto.

JUBA, SUDÃO DO SUL, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h08

No campo improvisado, não há mais espaço para nada. Os deslocados vivem apinhados em pequenas e sufocantes barracas de plástico grudadas umas às outras sobre lama. Nyapal está apavorada demais para deixar os domínios da base e enterrar a filha.

As barracas ocupam o espaço da área de drenagem da base; na parte seca e alta ficam os capacetes azuis. O período de enchentes se aproxima e partes do campo já estão inundadas, os deslocados dormindo sobre colchões encharcados. As primeiras chuvas arrastaram as latrinas que estavam sendo instaladas. O esgoto contamina terra e, consequentemente, a água. Crianças circulam carregando na cabeça galões de 20 litros maiores que seus corpos frágeis. Bebe-se de tambores de plástico espalhados pelo campo com água suja, mas clorada, uma caneca compartilhada por todos.

O que era para ser um abrigo provisório e seguro para os fugidos dos conflitos se transforma aos poucos em uma pequena e caótica cidade, onde se tenta sobreviver com o que se tem. As mulheres cozinham para os homens, com os ingredientes que eles trazem, por uns trocados, alguns trouxeram animais como galinhas e vendem ovos, outros trocam o que restou por comida num mercado informal de escambo.

Novos deslocados começaram a chegar de outras regiões. No total, estima-se em 800 mil o número de deslocados internos no país.

Há um mês, uma contaminação de sarampo se alastrou rapidamente no campo. "Tínhamos crianças morrendo aqui todos os dias. Em condições como esta do campo, qualquer doença se espalha assim", diz Mathieu Ebel, coordenador da missão da MSF. A organização tenta controlar casos de cólera, evitando que se transformem em novo surto.

A ONU informa que está construindo um novo campo para transferir pelo menos 10 mil pessoas, mas é improvável que isso ocorra antes do período crítico das chuvas. Organizações humanitárias pedem uma solução para o problema dos deslocados e criticam a ONU pela demora em lidar com a crise. No portão de saída da base, lê-se em uma placa: "Este é o nosso mandato, nossa conduta, nosso orgulho". / A.C.

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