Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Refugiados ocupam Vila Olímpica de Turim

Com más condições de infraestrutura e higiene, imigrantes se adaptam ao local

Jamil Chade, Enviado Especial / Turim, Itália, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

TURIM, ITÁLIA - Construída para hospedar pessoas de diferentes nacionalidades, simbolizando a esperança de que a convivência num só local poderia superar qualquer barreira ou rivalidade, a Vila Olímpica de Turim, com seus 33 prédios erguidos para os Jogos de Inverno de 2006, passou a ser ocupada de forma ilegal por imigrantes de vários países africanos.

Hoje, o complexo é o símbolo de resistência para quem espera uma definição sobre o futuro. Em três anos, a Itália recebeu um total de 600 mil estrangeiros que, sem poder continuar a viagem a outros lugares na Europa, estão retidos num país com alta taxa de desemprego, anos de recessão e tensão social.

No lugar de atletas e artistas da patinação no gelo, somalis, nigerinos e líbios em busca de sobrevivência moram no local, em meio a precárias condições de higiene. Os quatro prédios ocupados foram invadidos inicialmente em 2013, quando acampamentos foram desmontados pelas autoridades italianas. No entanto, o que era um ato isolado de resistência por parte de alguns ganhou uma nova dimensão nos anos seguintes e hoje imigrantes querem provar que poderiam dar um exemplo de autogestão.

As autoridades da prefeitura de Turim explicaram ao Estado que a maioria dos prédios tem uma função pública, usada para abrigar escritórios e mesmo casas sociais. Quanto aos quatro edifícios ocupados, a prefeitura tentou sem sucesso negociar a retirada dos imigrantes. Em 2015, a cidade ainda saiu vitoriosa em uma disputa legal. De acordo com as autoridades, uma ordem judicial decretou o despejo e a cidade garante à reportagem que tem planos para reutilizar o local.

No entanto, o governo local esbarra em um problema: onde colocar as mais de 1,1 mil pessoas que moram ali. Para muitos dos imigrantes, os prédios estão em condições melhores que os estábulos abandonados em que eles tiveram de viver no interior da Itália, enquanto esperavam um trabalho para colher laranjas, azeitonas ou uvas.

Mas, ainda assim, os imóveis são o retrato de um projeto fracassado. Por terem sido construídos a toque de caixa para o evento de 2006, o material usado não era de qualidade e hoje a infraestrutura está profundamente deteriorada. Sem os cuidados da cidade e com moradores sem recursos, são frequentes os problemas elétricos, de abastecimento de água e saneamento básico.

Por fora, a pintura cuidadosamente escolhida pelos arquitetos alemães que foram contratados para o projeto não resiste ao tempo e ao descaso. Nos corredores, muitos deles sem luz, cabos cruzam pelo teto tentando levar a todos alguma energia, mesmo que roubada de postes na calçada. Saturado de pessoas, muitas famílias improvisaram os próprios apartamentos, com cortinas velhas encontradas nos lixões.

A professora voluntária de italiano que dá aulas aos imigrantes, Maria Nigri, conta que sua associação foi obrigada a fechar, em maio, a escola que tinham aberto dentro da Vila Olímpica. “O local foi invadido por ratos. Era insuportável. Não tinha mais como entrar”, explicou a voluntária do Comitê de Solidariedade aos Refugiados e Migrantes. Nos últimos meses, paga pela associação que se ocupa dos imigrantes, uma empresa foi chamada para colocar veneno e tentar matar os ratos.

Grupos de extrema direita têm jogado bombas nas entradas dos prédios, na esperança de assustar os clandestinos. “A polícia não agiu”, lamentou Maria, que é professora de uma escola pública de Turim.

Representantes das forças de segurança dizem temer o confronto entre clandestinos e grupos neofascistas. Eles também monitoram o risco de uma infiltração de células terroristas entre os mais de mil moradores, além do tráfico de drogas. A própria existência de um local fora do controle das autoridades municipais de Turim é, no fundo, o símbolo do fracasso de parte do legado dos Jogos.

Prejuízo

Se Turim foi o principal centro industrial da Itália no século 20, hoje a cidade luta para se redefinir. Os Jogos de 2006 foram vendidos para a população local como essa oportunidade de recriar uma cidade. De fato, os dados oficiais apontam que, em 15 anos, os turistas aumentaram de 1 milhão para 6 milhões. Pesquisas de opinião também indicam que os moradores destacaram avanços reais na infraestrutura do evento.

Os Jogos de Inverno terminaram com um prejuízo de € 30 milhões. Somando o orçamento das competições e as obras de infraestrutura, Turim gastou € 3,6 bilhões no evento. O valor original que seria gasto, segundo as autoridades, era de € 2,1 bilhões.

Algumas das instalações, que ficaram sem uso, tiveram de ser desmontadas alguns anos depois. Uma delas, a de bobsled, custou € 85 milhões. Mas precisava de cerca de ¤ 1,7 milhão por ano para se manter e nenhum evento conseguia bancar a conta.

Abandono

Em um estudo realizado pelos pesquisadores Egidio Danseroi, Alfredo Melai e Cristiana Rossignoloi, o que chama a atenção é o legado da Vila Olímpica, que ocupa 100 mil metros quadrados. “Rapidamente, ficou evidente que os prédios que alojaram os atletas estavam em um estado de calamidade, o que os impediu de ganhar um novo destino”, constataram.

Após os Jogos, o local teria a função de abrigar lojas, feiras e eventos. Mas como vem sendo o destino de muitas instalações Olímpicas como Sochi, Rio e Atenas, Turim também foi um fracasso. No lugar do barulho de um mercado de frutas tradicional, a obra de concreto está em total silêncio, interrompido apenas pelo barulho da linha do trem.

Regras próprias

Assim como os atletas de 2006, os refugiados que vivem hoje na Vila Olímpica de Turim também têm de seguir um regulamento. Quem faz as regras são os próprios moradores que ocupam de forma ilegal aquilo que foi transformado em um cortiço.

Sarda Mballo, jovem senegalês, é um dos líderes. “Aqui não é nossa casa. É apenas um local de passagem e todos esperamos um dia ter uma vida diferente”, contou. “Mas, enquanto isso, temos de fazer o melhor possível para que seja habitável. O que se faz com os imigrantes na Europa não pode ser explicado por palavras.” Nos últimos anos, Mballo passou a pintar os muros deteriorados. Assim como muitos dos que estão no complexo de prédios, o senegalês também atravessou o Mar Mediterrâneo em uma frágil embarcação.

Lamine, jovem que nasceu em Níger, mas cresceu na Líbia, conta que, nos apartamentos que um dia foram ocupados pela elite do esporte mundial, hoje se amontoam de 10 a 15 pessoas. “Jamais pensei que um dia moraria numa Vila Olímpica.”

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