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Refugiados são um desafio para Otan no sul da Europa

EUA precisam demonstrar compromisso com os aliados europeus também na busca de uma solução para a crise dos imigrantes do Mediterrâneo

JIM, HOAGLAND, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2015 | 02h01

A Guerra Fria tornou a identidade atlântica da Europa fundamental nos entendimentos do Velho Continente com o mundo e, em particular, com seu aliado americano. Países da Europa Central e do Mediterrâneo desenvolveram hábitos de cooperação e consulta na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que promoveram o fluxo de acordos de segurança, comércio e ideias através do Atlântico norte.

Mas os tumultos que varreram as costas meridionais e orientais do Mar Mediterrâneo ameaçam transformar o panorama estratégico dos assuntos de segurança da Europa. Os Estados Unidos precisam dar uma cuidadosa atenção às diferenças crescentes nas maneiras como Washington e seus parceiros europeus definem os maiores perigos para seu bem comum.

"Para nós, a maior ameaça vem do sul", diz um amigo italiano perfeitamente entrosado com os assuntos da Otan que agora dedica seu tempo a preocupar-se com os imigrantes que fogem de guerras, da pobreza e das rupturas de governança ao longo das costas do Mediterrâneo. "Nossos pesadelos não são com tanques russos invadindo do leste. São com os terroristas a uma curta distância de barco na Líbia.", afirma.

"Na França, ninguém está discutindo sobre armar a Ucrânia", disse-me na semana passada um parlamentar francês conservador que já foi conhecido por suas visões de "falcão" sobre a Guerra Fria. "Estamos discutindo de quanta vigilância nacional precisamos para identificar terroristas que retornam das zonas de guerra na Síria e no Iraque - e como impedir a África de implodir por completo." Muitos americanos ficarão tentados a deixar os europeus se haverem sozinhos com a crise no Mediterrâneo. Mas a necessidade de uma nova ênfase em solidariedade da aliança e compartilhamento de ônus é salientada neste momento pela agressão de Vladimir Putin na Ucrânia oriental e as respostas dúbias da Otan que ela provocou.

Neste momento, a Otan está dividida em três facções sobre a Ucrânia.

Os países mediterrâneos estão distraídos e distantes de qualquer esforço comum para se opor à tentativa de Putin de reescrever as regras de guerra e paz na Europa moderna a favor da Rússia. As sanções econômicas contra a Rússia estão começando a cansar países como França, Itália e Grã-Bretanha. Uma medida do declínio da identidade atlântica em assuntos europeus é a crescente ausência da Grã-Bretanha em projeção de poder e diplomacia de grande potência. A atual campanha eleitoral britânica contribuiu para esta tendência, mas forças maiores estão moldando o recuo.

A Polônia e os países bálticos, temendo a possibilidade de serem os próximos na lista de Putin, estão na outra ponta do espectro. Eles adotaram uma linha "atlanticista" dura e procuram dissuadir Putin de multiplicar as operações de infiltração de tropas - que trariam soldados da Otan em sua ajuda na eventualidade de ataques russos através de suas fronteiras.

O governo do presidente Barack Obama fica em no meio termo reativo e instável sobre a Ucrânia, permitindo que a chanceler alemã Angela Merkel desempenhe o principal papel no trato com Putin enquanto tenta tranquilizar a Polônia e os Estados bálticos alternando aviões e tropas em seus territórios numa operação denominada Atlantic Resolve.

Essa atitude tem o mérito de manter as tensões russo-americanas num nível manejável, mas não impediu Putin de aumentar as forças russas na Ucrânia ou o levou a conter seus comandantes militares que ameaçam o Ocidente com destruição nuclear quando nem entendem. Será surpreendente se o líder russo não aproveitar a oportunidade dourada de plantar uma cunha entre os Estados Unidos e a Europa - e não procrastinar em relação a tal oportunidade.

Essa, em si, é uma forte razão para os americanos mostrarem solidariedade com aliados europeus que se defrontam com a penosa redefinição dos desafios de segurança para suas sociedades. Isso é particularmente verdadeiro para a Itália, que foi deixada por sua própria conta para lidar com a maré crescente de refugiados e imigrantes nos últimos quatro anos.

A Itália provavelmente verá 200 mil imigrantes chegarem a suas costas este ano, conforme me relatou o primeiro-ministro Matteo Renzi este mês em Washington, onde pediu apoio a Obama para os esforços europeus para lidar com essa maré. Líderes da União Europeia prometeram navios e outros tipos de ajuda numa cúpula na quinta-feira.

Os EUA deveriam perceber agora que a missão Atlantic Resolve da Otan para fortalecer vizinhos da Ucrânia teria de ser combinada com o envolvimento da aliança na crise mediterrânea. Esse envolvimento - podem chamá-lo de Mediterranean Resolve - tomaria uma forma diferente, mas também demonstraria que a segurança é indivisível para todos os membros da Otan. As forças que impelem pessoas desesperadas de Eritreia, Síria, Mali e outros países falidos a colocar suas vidas nas mãos de traficantes humanos na Líbia são globais e requerem uma resposta coordenada da aliança mais bem-sucedida da História. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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