Abdulaziz ketaz/AFP
Abdulaziz ketaz/AFP

Refugiados sírios optam por viver em ruínas romanas ao invés de acampamento lotado

Uma dezena de famílias encontra abrigo entre os vestígios do povo de Baqirha, um patrimônio mundial da Unesco

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 04h00

Abdelaziz al-Hassan e sua família montaram sua barraca entre paredes de pedra e colunas desabadas. O isolamento das ruínas bizantinas e romanas pareceu uma boa alternativa aos acampamentos lotados de refugiados da guerra no noroeste da Síria.  

Assim como eles, uma dezena de famílias vivem há meses entre os vestígios do povo de Baqirha, que faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco. 

Eles fogem da ofensiva lançada no final de 2019 pelo governo sírio e sua aliada, a Rússia, contra o último grande bastião jihadista e rebelde de Idlib, no noroeste da Síria.

"Escolho este local por sua tranquilidade, longe dos acampamentos lotados onde as doenças proliferam", justifica Hassan, pai de três filhos.

Atrás dele, apenas três paredes de pedra branca se mantêm em pé. Uma corda serve de linha e os restos das colunas adornam o chão entre capitéis coríntios e rodapés esculpidos.  

A barraca de lona de Hassan é erguida a céu aberto entre os muros de um templo romano. Um painel solar fornece energia.  

Segundo os historiadores, o templo de Baqirha, chamado de Zeus Bomos, foi construído no século II para receber os peregrinos. Naquela época, a região era rica graças à produção de azeite de oliva. 

Para o ex-diretor de antiguidades sírias de Damasco, Maamun Abdel Karim, Baqirha se destaca pelo "bom estado de conservação" dos vestígios. 

Víboras e escorpiões

Embora a família Hassan esteja mais tranquila aqui do que nos acampamentos lotados de refugiados, o local apresenta outras inconveniências. 

Para ir à escola da aldeia, as crianças precisam caminhar cerca de 1,5 km e a área está infestada por víboras e escorpiões. "A cada dois dias mato um escorpião", contou o homem de 30 anos.

Abdelaziz al-Hassan, natural do sul da província de Idlib, chegou aqui há um ano junto com seu cunhado, fugindo de um bombardeio do governo. 

As operações do governo e de seu aliado russo, suspensas em março de 2020 após a trégua negociada entre Moscou e Ancara, levaram cerca de um milhão de pessoas ao exílio, que atualmente vivem em acampamentos informais no norte de Idlib.   

"Para onde mais ir?"

O cunhado de Hassan, Saleh Jaur, também mora com seus filhos nas ruínas, após abandonar sua aldeia depois da morte de sua esposa e de um de seus filhos em um bombardeio. 

"Escolhi este local porque fica perto da fronteira turca. Se acontecer algo, podemos cruzar a pé", afirma este homem de 64 anos. 

"Nos falaram dos acampamentos e fui vê-los com meus próprios olhos, estão prestes a explodir", disse Jaur.

Na encruzilhada de várias civilizações, desde os cananeus da Bíblia até os otomanos, a Síria possui vestígios arqueológicos de romanos, mamelucos e bizantinos; mesquitas, igrejas e castelos cruzados povoam seu território.  

Desde o início do conflito em 2011, muitos desses lugares foram vítimas de saques e bombardeios. 

Os responsáveis da aldeia vizinha, encarregados de vigiar o sítio arqueológico, pediram às famílias que saíssem do templo, o que elas se negam a fazer até que lhes ofereçam outro alojamento. 

"Para onde mais ir, a não ser morar na rua?", indaga Hassan. /AFP

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