Ali Jarekji/Reuters
Ali Jarekji/Reuters

Refugiados sírios vivem situação de miséria e desespero

Correspondente da BBC visita campo na fronteira com a Turquia e descreve cenas de sofrimento e tristeza

BBC

26 de novembro de 2012 | 16h42

ATMA, SÍRIA - À distância, o campo de refugiados sírios em Atma parecia uma linda paisagem: barracas montadas lado a lado em um tom de branco sobre uma colina marrom, cercada por verdes oliveiras. De perto, a verdade veio à tona: cenas de miséria, tristeza e desespero.

Havia chovido pouco antes. As mulheres cavavam a terra com as mãos, fazendo pequenas "barragens" improvisadas para tentar impedir que a água entrasse nas barracas. Os que tentavam subir a colina tropeçavam e escorregavam na lama misturada com esgoto, correndo a céu aberto.

"O mundo inteiro pode ver o que está acontecendo aqui. Alguém está nos ajudando?", grita uma mulher. Ela estava furiosa com a presença de mais jornalistas estrangeiros no local, filmando. Para ela, as reportagens não parecem ter efeito algum sobre o drama dos refugiados.

"Não temos banheiros, nem água ou comida. Nossa situação é aceitável? Vocês têm nos visto assim há dois anos. Vocês ocidentais estão todos apoiando Bashar [Assad, presidente da Síria]", acrescenta.

Na verdade, as potências ocidentais pediram que o líder sírio renunciasse, aceitando o que os rebeldes e grande parte da população vêm exigindo há dois anos, e colocando um fim na guerra civil que já deixou milhares de mortos. Mas até agora não houve o "momento Kosovo", quando imagens de pessoas com frio e com fome vieram à tona, abrindo caminho para uma intervenção estrangeira na região.

Números alarmantes

Os números são certamente alarmantes: 2,5 milhões de pessoas deixaram suas casas e permanecem desabrigadas dentro do país; 400 mil refugiados em nações vizinhas; 11 mil cruzando a fronteira por dia. E essas cifras, calculadas pela ONU e o Crescente Vermelho [braço da Cruz Vermelha nos países islâmicos], são provavelmente menores do que os números reais.

Até agora, no entanto, muitos daqueles que fogem da guerra civil foram invisivelmente alojados em casas de parentes e amigos em outros pontos do país ou do outro lado da fronteira. O campo de Atma, embora perturbador, é relativamente pequeno.

Mas ele e outros do tipo devem provavelmente aumentar de tamanho conforme o conflito se arrasta. E isso pode ser importante para determinar o futuro da Síria, como me disse um militar britânico. "A cobertura constante dos refugiados e imagens deles arrasados podem decidir a política."

A ONU espera que o número de refugiados cadastrados fora da Síria chegue a 700 mil até o fim do ano. A Turquia, país vizinho, embora tenha aceitado generosamente milhares de sírios, está tentando reduzir o fluxo de entrada e, para isso, já começou a rejeitá-los.

Sem destino

Para muitas famílias desesperadas, que vêm fugindo de vilarejo em vilarejo, Atma é a última parada antes da Turquia. A fronteira fica ao lado da colina sobre a qual as barracas estão instaladas, e ninguém cogita voltar e enfrentar os combates novamente.

Muitos já passaram pelos horrores da guerra, sobretudo no norte do país, região que presenciou alguns dos momentos mais terríveis do conflito até agora. Alguns são sobreviventes do massacre de Kfar Obeid, onde acredita-se que 110 pessoas, ou mais, foram mortas pelas forças de segurança em dezembro de 2011.

"Eles acabaram com a vila inteira. Enquanto chorávamos sobre os cadáveres, eles atiravam na direção dos nossos pés e gritavam: 'seus porcos, nós fizemos o jantar para vocês'", diz Samira Khaled.

Em prantos, ela continua: "Para onde podemos ir? Para onde podemos ir? Toda a Síria está sendo assassinada. Nós pedimos a Deus para destruir Bashar. Nós pedimos ajuda ao mundo. Pelas nossas crianças, nessa chuva, nesse tempo terrível, nós devemos prevalescer. O Islã precisa prevalescer."

A autoridade britânica que conversou comigo sobre como as imagens dos refugiados na TV poderiam afetar a política deixou uma coisa muito clara: "Se isso vai resultar apenas em uma resposta humanitária ou em algo militar, vai depender em grande parte dos americanos."

Washington tem mostrado cada vez mais preocupação com a hipótese de que armar os rebeldes ou autorizar uma intervenção militar possa ajudar somente os radicais islâmicos da Síria. E essa crença só aumentou quando, na semana passada, rebeldes do norte do país declararam que estavam lutando para criar um Estado islâmico.

'Mentiras'

Fora da barraca que está sendo usada como mesquita, esbarrei com Samir Ibrahim, presidente do Comitê Livre de Pregadores e Acadêmicos da Síria. Para ele, a declaração foi um erro "dos nossos irmãos". "Nós estamos em busca de um Estado civil - com a lei islâmica e um sistema democrático. Todos os grupos da Síria podem coexistir juntos, tanto alauítas como drusos e cristãos. Não queremos nenhuma forma de prática islâmica extremista."

Mas, olhando para a degradação ao nosso redor, ele acrescentou: "Esperamos que a ONU e grandes nações como a Grã-Bretanha se apressem para ajudar o povo sírio. Quanto mais eles esperarem, mas o radicalismo floresce e mais organizações extremistas nascerão."

Os números dão uma ideia do panorama que está se formando para os refugiados. Em uma semana normal, mais de mil pessoas são mortas no país, e todos os dias centenas fogem da guerra e chegam ao campo de Atma. Só na semana passada foram 1,5 mil, de acordo com agentes humanitários. E todo dia fica mais frio e chuvoso, conforme o inverno se instala no hemisfério norte, o que só deve piorar o desespero dessas pessoas.

Veja vídeo do campo de refugiados:

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