REUTERS/Manaure Quintero
REUTERS/Manaure Quintero

Refúgio de opositores em embaixadas na Venezuela pode se eternizar

Em vez de ir para o exterior, dissidentes estão apelando às embaixadas estrangeiras, como ocorreu na década de 70, quando ditaduras militares muito mais violentas na América do Sul caçavam seus opositores

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2019 | 17h44

CARACAS - À medida que a crise política na Venezuela se aprofunda, mais e mais opositores do regime de Nicolás Maduro estão fugindo com medo de serem presos por participar do fracassado levante militar do dia 30 liderado por Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino, e um pequeno grupo de militares.

Mas, em vez de ir para o exterior, muitos dissidentes estão apelando às embaixadas estrangeiras, como ocorreu nos dias obscuros da década de 70, quando ditaduras militares muito mais violentas na América do Sul caçavam seus opositores. Com isso, a oposição venezuelana leva às embaixadas de outros países a crise que vem afetando a Venezuela.

Na semana passada, três deputados opositores venezuelanos, acusados de rebelião pelo chavismo, buscaram refúgio em embaixadas estrangeiras um dia depois de terem a imunidade parlamentar cassada pela Assembleia Constituinte, controlada por Nicolás Maduro. Edgar Zambrano, vice-presidente da Assembleia Nacional (AN), de maioria opositora, foi preso pelo serviço de inteligência da Venezuela

O abrigo aos deputados opositores, que em princípio deveria ser temporário, agora parece não ter um prazo para terminar, pois afetados pelo medo, o cansaço e a fome, cada vez menos venezuelanos têm participado dos protestos para pressionar pela queda do governo. 

No sábado, Guaidó discursou a uma reduzida audiência em uma região opositora em Caracas, em uma manifestação que nem pôde ser comparada às que ocorreram em todo país em meio à esperança de que o líder opositor pudesse pôr fim a um regime que arrasou a economia de um país rico em petróleo. Aparentemente, o fracasso do levante militar e a dura repressão aos protestos foi a gota d’água para os manifestantes anti-chavismo.

Nos últimos dez dias, enquanto Maduro se recupera do levante, dez deputados de oposição foram acusados de traição e tiveram sua imunidade levantada. Três deles se abrigaram nas residências de embaixadores de Itália e Argentina, o vice-presidente da Assembleia Nacional, Enrique Zambrano, foi preso, enquanto o líder opositor Leopoldo López, que desafiou a prisão domiciliar para participar do golpe, agora vive com a família na residência do embaixador da Espanha em Caracas. 

Outros se escondem em missões diplomáticas não reveladas, enquanto 18 membros da Guarda Nacional que atenderam ao pedido de Guaidó para rebelar-se estão escondidos na embaixada do Panamá.

Ninguém solicitou asilo, apesar de os países latino-americanos terem a tradição de outorgar tal status aos dissidentes políticos que pedem refúgio em suas sedes diplomáticas, permitindo que entrem como “hóspedes”.

Mas, enquanto a crise política não se resolve, eles podem acabar como Freddy Guevara, ex-vice-presidente do Parlamento venezuelano, que se abrigou na Embaixada do Chile na Venezuela em novembro de 2017. Isso lhe permitiu permanecer politicamente ativo, mantendo frequentes reuniões para discutir estratégias com Guaidó e outros membros de seu partido Vontade Popular, no entanto, ele não deixa de se sentir como um prisioneiro.

“Sou como o personagem de uma casa amaldiçoada. Não posso sair”, disse Guevara. A decisão de Guevara, que teve sua imunidade levantada, de buscar abrigo na residência do embaixador foi em parte uma necessidade, em parte uma estratégia política. Ele foi recebido com os braços abertos pelo embaixador chileno, Pedro Ramírez, que dois anos atrás também recebeu Roberto Enríquez, presidente do partido conservador Copei, que continua vivendo na missão diplomática. / AP, EFE e AFP

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