Região boliviana de Santa Cruz vive novo dia de violência

A região boliviana de Santa Cruz foi novamente cenário de incidentes violentos protagonizados por simpatizantes dos dirigentes cívicos, que teriam incendiado dois mercados pertencentes à comunidade indígena da área. Segundo relatos da imprensa local, grupos armados com paus, gasolina e pedras queimaram no domingo dois mercados na localidade de San Miguel de Velasco, a 400 quilômetros da capital de Santa Cruz. Os proprietários tiveram que fugir para não serem agredidos. O incidente foi denunciado pelo prefeito deste município, Pedro Dorado, que afirmou que os agressores seriam membros dos movimentos cívicos e da Unión Juvenil Cruceñista, grupos ligados aos setores que fazem oposição ao presidente Evo Morales nessa região. O porta-voz do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, Daniel Castro, concordou com a declaração de Dorado, mas negou que a entidade esteja encorajando este tipo de atos violentos. Em declarações à Agência Boliviana de Informação (ABI, estatal), o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, disse que o governo ordenou a transferência de efetivos policiais à zona "para conter estes fatos intoleráveis de violência e vandalismo". "Lamentamos as agressões de grupos que transgridem a ordem constitucional, com atropelos contra os povos e instituições que protegem os direitos indígenas", acrescentou Quintana.Os confrontos neste departamento boliviano começaram na sexta-feira passada, horas antes de ocorrer na cidade de Santa Cruz uma grande reunião para referendar o regime autônomo de gestão defendido pela região. Índios e camponeses favoráveis ao governo socialista do presidente Evo Morales - o primeiro de origem indígena na história do país - bloquearam a estrada que liga a cidade ao departamento de Beni, para impedir a passagem de centenas de pessoas que participariam da assembléia popular em Santa Cruz. Por isso, cerca de 30 efetivos policiais continuam em alerta na região, disse nesta segunda-feira Robert Shock, prefeito de Guarayos, um dos municípios do norte de Santa Cruz que foi afetado pela onda de violência dos últimos dias.CriseO governo boliviano tem acusado os líderes e governadores de quatro dos nove departamentos (equivalentes a Estados) do país de buscarem a "divisão" da Bolívia. A oposição reunida em comitês cívicos, em sua maioria integrados por organizações empresariais, acadêmicos e profissionais, exige que o governo respeite o voto autonomista conquistado nessas regiões no referendo de julho; e que a Assembléia Constituinte aprove todos os artigos da Nova Constituição por maioria de dois terços, enquanto o governo quer maioria de 50% dos votos mais um. O governo opinou que o pedido dos oposicionistas tem fins políticos e que o objetivo de fundo de "latifundiários e gente de direita que teme perder seus privilégios" é boicotar a Assembléia para evitar as mudanças que o governo defende no país.Para o partido Poder Democrático e Social (Podemos), o maior da oposição a Evo, só a imposição da maioria de dois terços poderia forçar o MAS a debater as propostas da futura Constituição com as demais forças políticas. Evo tem insistido que uma nova Constituição será a principal ferramenta para que cumpra a promessa de campanha de "refundar a Bolívia". A oposição boliviana, no entanto, teme que a nova Carta amplie os poderes do presidente e abra o caminho para a adoção de medidas que ponham em risco o direito à propriedade e demais garantias individuais.

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