Região manterá pressão sobre EUA em cúpula

Medidas não devem esvaziar demandas pelo fim definitivo do embargo, indica Amorim

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

O Itamaraty qualificou de um "pequeno passo na direção certa" a iniciativa dos EUA de eliminar restrições a viagens e remessas de divisas para Cuba e de permitir a presença do setor americano de telecomunicações na ilha. As medidas anunciadas anteontem pela Casa Branca, entretanto, não deverão a aliviar as tensões na 5ª Cúpula das Américas, de sexta-feira a domingo, em Trinidad e Tobago. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, antecipou ontem que a América Latina não abrirá mão de pedir ao presidente dos EUA, Barack Obama, o fim do embargo americano a Cuba e a reinserção do país no foro interamericano. Amorim admitiu, no entanto, que haverá o cuidado de evitar um tom agressivo e de confronto, para não abortar uma discussão reconhecidamente delicada, que está apenas começando. "Esse foi um pequeno passo na direção certa. O importante é que seja, realmente, um primeiro passo e (os EUA) não esperem gestos de Cuba para poder continuar", declarou Amorim ontem, referindo-se à possível retomada do diálogo direto entre Washington e Havana. "O presidente Obama tem revelado boas intenções de interlocução com outros países que, do ponto de vista político, estão mais afastados dos EUA do que Cuba. É de se esperar que essa mesma atitude exista em relação a Cuba", disse Amorim ao final da visita do chanceler de Cabo Verde, José Brito. No Itamaraty, as medidas adotadas pela Casa Branca foram avaliadas como um rompimento da linha mais dura imposta pelos EUA a Cuba no início da década de 80. Como lembrou Amorim, as restrições a viagens e remessas de divisas haviam sido levantadas pelo governo de Jimmy Carter (1977-1981), mas acabaram reeditadas por seu sucessor, George Bush (1989-1993), mantidas por Bill Clinton (1993-2001) e aprofundadas por George W. Bush (2001-2009). Para Amorim, a permissão para empresas americanas de telecomunicações prestarem serviços em Cuba foi a grande novidade. A medida flexibiliza restrições previstas no embargo econômico, em vigor desde 1962. O anúncio das medidas a apenas quatro dias da abertura da Cúpula das Américas, porém, foi percebido como tentativa de aliviar possíveis pressões sobre Obama e de desbastar o terreno para um diálogo mais racional. Por sua opção não democrática, Cuba é o único país do continente ausente da Cúpula das Américas, fórum de diálogo entre os EUA e o Canadá com a América Latina e o Caribe criado em 1994, por iniciativa de Washington. Desde 1962, Havana está suspensa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mesmo excluído da agenda oficial da reunião de Trinidad e Tobago, o isolamento cubano deverá dominar as discussões. "É impossível não falar do tema, que vai pairar sobre a reunião. É a agenda não escrita", resumiu Amorim. Em princípio, a questão de Cuba poderá surgir em qualquer uma das três sessões plenárias, nas quais serão tratados os temas oficiais - prosperidade humana, sustentabilidade ambiental e segurança energética. É provável que, ao lado da análise sobre a crise econômica mundial, Cuba domine as discussões que se darão num "retiro" dos chefes de Estado, marcado para a manhã de domingo na residência do primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Patrick Manning.A missão de moderar os ânimos em Trinidad e Tobago caberá especialmente ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.Recebido por Lula e Amorim na semana passada, o chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, explicou que o governo de Raúl Castro teme que as posições incendiárias da Venezuela, do presidente Hugo Chávez, e de seus aliados em defesa de Cuba levem os EUA a abortar o diálogo bilateral. No encontro, Lula comprometeu-se a colaborar para amornar os debates e evitar um impasse.

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