Saul Loeb/AFP
Saul Loeb/AFP

‘Região quer os Estados Unidos como parceiro e investidor’

Carone diz ter força para aumentar capital e aposta em apoio do Brasil, que segundo ele já recebeu 86 vezes o que contribuiu

Entrevista com

Mauricio Claver-Carone, presidente do BID

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Mauricio Claver-Carone ficou conhecido como o cérebro por trás das medidas de linha dura adotadas por Donald Trump contra governos de esquerda na América Latina. Em 2020, Carone lançou seu nome como candidato à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e conseguiu apoio da maioria da região. A escolha impôs um problema ao presidente eleito dos EUA, Joe Biden, que precisará trabalhar com um ex-trumpista, hoje no comando da principal instituição financeira para América Latina e Caribe. Em entrevista ao Estadão, Carone garante que está alinhado aos interesses do governo democrata e a região o escolheu porque quer maior presença dos EUA

O sr. propõe o aumento de capital do banco e diz ter apoio bipartidário nos EUA para isso. É um apoio suficiente?

Primeiro, chamo isso de reinvestir nas Américas, criar uma década de oportunidades, completamente oposta à década perdida que tivemos. A forma como funcionam os aumentos de capital no governo dos EUA é assim: geralmente, o Tesouro começa com um 'não', sempre firme. O que significa que, no Congresso, sempre começamos com um 'de jeito nenhum', 'absolutamente não'. Geralmente, mais de três anos depois, o Tesouro concorda. Em 2010, o Tesouro eventualmente concordou com um aumento de capital.

Quase tudo foi destinado ao Haiti. E o banco quase não se beneficiou de capital integralizado pelos EUA. Em 2015, quando houve a criação do BID Invest (braço privado do banco), novamente os Estados Unidos não participaram. A participação (em ações) dos EUA no BID Invest passou de 30% para 15%. As ações do Japão diminuíram, as ações da Espanha diminuíram, mas você sabe quem ficou com nossas ações?

A China. Portanto, aqui estamos, em condições de não repetir os erros da história. E ao fazer isso de forma bipartidária, pela primeira vez na história, vamos ter uma coalizão ampla o suficiente para aprová-lo. Não há nada no Congresso hoje em dia que tenha apoio bipartidário. Este projeto tem um grupo de senadores poderosos em ambos os lados, que por si só é diferente, uma mensagem poderosa.

Nenhum aumento de capital resolve todos os problemas. O aumento de capital olha para o futuro. Porque, no final das contas, mesmo que seja aprovado, até o final do ano, realmente não começa até 2023, 2024, 2025. Portanto, estamos fazendo tudo o que podemos agora para apoiar a região este ano. Mas obviamente será necessário um aumento de capital. E isso também mandará uma mensagem para a região. 

Os países, como o Brasil, precisam se comprometer com esse aumento de capital, em um momento em que muitos não têm espaço para gastos.

No caso do Brasil, é indiscutível que somos a melhor proposta em valor. Não apenas somos a instituição multilateral que tem os menores custos de financiamento para o Brasil, mas, sem dúvida, o Brasil é o maior beneficiário do BID, portanto seria o maior beneficiário de um aumento de capital. Ao longo do tempo, o Brasil recebeu 86 vezes do que contribuiu em financiamento. 

O Brasil te apoiou quando você decidiu concorrer ao BID, mas perdeu poder ao ficar de fora da vice-presidência do banco na sua gestão. Como tem sido a relação com o Brasil?

É excelente. Nós temos três vice-presidentes e eu melhorei o nível de talentos no banco, porque é assim que eu trabalho. Não é como no passado, quando tudo era baseado em toma lá dá cá. O Brasil está bem representado, e continuará sendo bem representado. Há um candidato brasileiro maravilhoso para comandar nossa área de infraestrutura, uma das mais poderosas do banco, e haverá um anúncio em breve sobre um cargo sênior que será preenchido por um brasileiro no IDB Invest. Em não tiro a medida das relações por toma lá, dá cá, tiro por trabalho em conjunto. E meu trabalho com o governo brasileiro é inigualável. 

O sr. tem dito que está pronto para lidar com o governo Biden. O governo Biden está pronto para trabalhar com o senhor? 

Eu trabalho com eles o tempo todo. Há cinco áreas que são ótimas oportunidades de trabalho conjunto. Estamos conversando com o Departamento de Estado sobre a situação da América Central. Também conversamos sobre vacinas, eles apoiam o que estamos fazendo. Nos meus primeiros 100 dias, colocamos US$ 1 bilhão para distribuição de vacinas, que é visto como o maior desafio do nosso tempo.

Sobre clima, eles (governo) estão muito animados com a Iniciativa da Amazônia, que lançaremos no encontro de Barranquilla em março, estamos procurando criar nosso próprio Fundo Climático. Olha, isso é único e é outro assunto no qual tenho trabalhado muito bem com o Brasil. Os europeus gostam de toda a noção de um aumento de capital verde e para os Estados Unidos também é uma proposta de grande valor, se criarmos nosso próprio fundo climático. Acho que é algo que deixa o Brasil empolgado, porque é uma divisão do fardo. Às vezes os países só olham para o Brasil, mas há sete países (onde há floresta amazônica). E é um fardo a ser dividido. A única iniciativa em parceria que existe entre todos será essa. 

A quarta oportunidade de trabalho é sobre a revisão das cadeias de suprimentos críticas, estabelecida pelo governo americano. Eles estão tentando mover algumas dessas cadeias de valor para fora da Ásia, da China em particular. Quais são as oportunidades? Esta tem sido minha obsessão.

Por último, a mobilização do setor privado. Ninguém está mais animado com a minha presidência do que o setor privado. Pela primeira vez, o setor privado realmente vê o BID, principalmente as empresas americanas. Mas também europeus, japoneses.

Mas há uma parte da equipe do atual governo que foi expressamente contrária à ideia de o sr. presidir o BID. Isso vai ser um problema para sua tentativa de aumentar o capital?

Há eleições, há política. Há o momento anterior a 3 de novembro. E, depois disso, há governança. Quando eu estava concorrendo, as pessoas falavam todo tipo de coisa sobre mim. Um dos meus compromissos com o senador Bob Menendez (democrata) em agosto, quando estava concorrendo, foi de que eu ficaria de fora da política. Depois da eleição de 3 de novembro, fui o único chefe de instituição financeira internacional que parabenizou o presidente Biden. E eu fui o primeiro ex-integrante do governo anterior a fazer isso. Portanto, há eleições e há governança. As eleições acabaram. A eleição para ser presidente do BID acabou e a eleição para o presidente dos Estados Unidos acabou. Agora, nós governamos juntos

Essas são pessoas que têm o compromisso de governar e fazer o que é certo. E não há parceiro melhor para eles e seu sucesso em todas essas questões nessas quatro questões: as vacinas, o clima, as cadeias de abastecimento, o setor privado. No fim do dia, meu sucesso nessas questões será o sucesso do governo dele nessas questões. E esse sucesso, francamente, é servido exclusivamente por um americano aqui na presidência.

Muitos argumentam que sua chegada à presidência mostra a perda de poder da América Latina em Washington.

Essa foi a retórica da minoria de países que se opôs à minha presidência. Mas vamos ser claros com os fatos. Fui eleito com o apoio de 23 dos 28 países do Hemisfério. Minha eleição teve mais consenso da  região e do banco do que houve nos últimos 20 anos.

Também apontam que sua vitória só foi possível porque a região está dividida.

Não, não, não, porque aqui está a mensagem que ninguém captou e ninguém entendeu. O que as pessoas se recusam a entender, porque estão presas nessa mentalidade do século 20, é que a região quer que os Estados Unidos sejam um investidor e um parceiro. E o que viram na minha candidatura foi uma oportunidade de passar a mensagem de que queriam que os EUA se preocupassem com o BID -- que, infelizmente, de forma bipartidária, não se importou com o BID -- e aumentar os investimentos na região, conseguir atenção das empresas e investidores americanos. A região se sente há muito tempo abandonada e de forma bipartidária.

Nas eleições, culpamos uns aos outros, mas é bipartidário. A região sentiu o abandono bipartidário. E eles virão a oportunidade de enviar uma mensagem. Eu concorri dizendo que iria trabalhar por um consenso bipartidário em relação ao BID, mas também trazer um maior interesse americano do setor privado e de outros para a região. E eu vi uma oportunidade com a pandemia. Ao lidar com todos aqueles problemas da cadeia de suprimentos, no início da pandemia, em meu trabalho anterior, ouvi empresas dizendo: 'isso foi um verdadeiro desastre', quando eles tiveram que fechar as fronteiras da Ásia. É uma oportunidade única em uma geração de mobilizar investimentos do setor privado americano na região. E isso fazia parte da minha agenda. E a região quer isso. O Investimento Estrangeiro Direto hoje não é um tabu, como se fosse parte do século 20.

O sr. fala em investir e consequentemente ocupar um papel que tem sido ocupado pela China. Qual será a reação? Está propondo uma mudança na maneira como os EUA se relacionam com a região.

Por que estaria preocupado com a China? A China é acionista deste banco. Tornou-se acionista em 2010 e em 2015, graças à negligência bipartidária dos Estados Unidos. Então essa é a realidade. E, como tal, eu os trato como acionistas. Se eu tenho alguma dúvida de que os Estados Unidos são o parceiro de escolha da América Latina no Caribe? Absolutamente não. Nenhuma dúvida sobre isso. Tudo o que vi aqui, toda a minha razão de estar aqui se baseia no fato de que a região quer que os Estados Unidos se preocupem mais não só com o BID, mas com a região em geral. 

No governo Trump, o sr. tinha uma posição mais alinhada com os governos de direita, como o Bolsonaro. O sr. acha que pode assumir um papel de um interlocutor entre o governo Biden e governos de direita na América Latina? 

Eu discordo da premissa de sua pergunta, porque tive excelentes relações com todos os governos democráticos da região, independentemente de sua ideologia. Minha relação com o governo brasileiro era tão boa quanto minha relação com o governo mexicano. Minha visão em relação ao Brasil era muito específica por causa da nossa realidade. Estou muito orgulhoso da parceria que ajudamos a lançar e estou indo tenho certeza que só vai se fortalecer. Sou muito orgulhoso do fato de quase termos a premonição da importância do fortalecimento norte-sul, das cadeias produtivas, da integração, porque isso é parte do que estamos vendo agora como a chave para lidar com futuras pandemias e coisas do curta para sermos capazes de manter essas cadeias de abastecimento, etc.

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