Regime cubano isola dissidentes durante visita

À onda de detenções intensificada no fim de semana, somam-se casos de corte de telefones e cerco a residências de opositores

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h44

No primeiro dia de visita do papa Bento XVI a Cuba, dissidentes do país denunciaram uma "censura" das autoridades locais - que teriam cortado os telefones fixos e móveis dos opositores para que eles não falassem com jornalistas estrangeiros - e uma onda de detenções na região oriental da ilha, onde o pontífice celebrou sua primeira missa ontem.

Por horas, o Estado tentou contato com mais de dez opositores cubanos ontem e apenas o telefone de Ángel Moya Acosta - um dos 75 presos políticos da Primavera Negra de 2003, libertado após negociações mediadas pela Igreja Católica, em fevereiro de 2011 - funcionou.

Em uma chamada repleta de interferências, o dissidente afirmou que "dezenas" foram detidos ontem, principalmente nas imediações de Santiago de Cuba, local da cerimônia religiosa que inaugurou a visita de Bento XVI.

De acordo com Moya, "mais de 17 ativistas das Damas de Branco (que se uniram para denunciar as prisões ocorridas em 2003, mas continuam a lutar por direitos humanos na ilha, após a Igreja ter negociado a libertação de todos os presos pela onda repressiva daquele ano) foram jogadas em prisões para ser impedidas de participar das atividades em Santiago de Cuba".

As forças de segurança do regime de Raúl Castro têm detido os dissidentes por curtos períodos - de algumas horas ou poucos dias - para, segundo os próprios opositores, impedi-los de participar de protestos ou reunir-se. A última onda de detenções tinha ocorrido entre os dias 17 e 18, um fim de semana em que cerca de 70 damas de branco foram presas em Havana e em outras províncias da ilha.

Moya é marido de Berta Soler, uma das fundadoras do movimento e atual líder das damas em Havana. Segundo o dissidente, muitas ativistas ligadas ao grupo de mulheres "tiveram suas casas sitiadas pelo Departamento de Segurança de Estado". "Fizeram um cerco a diversas residências. Ainda não temos uma cifra de quantas pessoas ficaram detidas, em ambas as circunstâncias, mas foi uma quantidade importante."

"Essa repressão organizada demonstra o medo que o regime tem de que os opositores estejam nas ruas para manifestar suas opiniões. O governo cubano está mostrando ao mundo e ao papa que é intolerante e mantém uma conduta repressiva sobre todas as pessoas que tentem exercer as liberdades estabelecidas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos."

O presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, Elizardo Sánchez, afirmou à agência de notícias France Presse que "o número de dissidentes pacíficos detidos nos últimos 4 dias é de pelo menos 150".

Tuítes. A blogueira cubana e colunista do Estado Yoani Sánchez começou a denunciar as detenções no domingo. Segundo a "jornalista independente", três dos presos anteontem na região oriental da ilha são repórteres que, após serem detidos, foram "deportados" para a capital, Havana. "Está ocorrendo uma 'limpeza ideológica' para impedir ativistas e dissidentes de assistir às missas", tuitou a blogueira.

Ontem, Yoani afirmou no microblog que seus telefones, assim como os de outros opositores, tinham sido cortados - e tuitava detalhes sobre a missa que assistia na TV. / COM AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.