Hamad I Mohammed/Reuters
Hamad I Mohammed/Reuters

Regime do Bahrein manipula questão sectária para reprimir manifestantes

Governo da pequena e rica monarquia de maioria xiita oculta reivindicações políticas da população com a máscara da divisão religiosa para justificar o uso da violência contra os opositores - sob o olhar complacente das potências ocidentais

Solly Boussidan, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Um dos focos esquecidos da primavera árabe - o movimento que tem arrastado milhões de manifestantes às ruas para pedir reformas políticas em países do Norte da África e do Oriente Médio -, o pequeno reino do Bahrein tem vivido semanas tensas desde março, quando tropas da Arábia Saudita entraram no país para ajudar o regime local a frear os protestos.

O regime monárquico da dinastia Al-Khalifa tem usado a relação entre a maioria xiita e a elite sunita para mascarar as principais demandas da população de 1,2 milhão de habitantes e massacrar o movimento por reformas. Segundo Nabeel Rajab, presidente do Centro do Bahrein para Direitos Humanos (CBDH), "a questão sectária aliena os governos europeus e os EUA do que realmente o ocorre no país". "O regime sabe que a última coisa que o Ocidente deseja é um país do Golfo aliado ao Irã, mas essa é uma realidade completamente distorcida. A verdade é que o regime está prendendo e torturando cidadãos pró-democracia, independentemente de serem xiitas ou sunitas. Atualmente 1 em cada 500 cidadãos do Bahrein é um preso político - quase todos torturados de sistematicamente, sem que suas famílias ou organizações de direitos humanos tenham acesso a eles. Houve até casos como o de uma jornalista local que trabalha para uma agência francesa, que foi violada sexualmente enquanto era torturada, mas nenhuma potência estrangeira tem feito nada para impedir que isso continue acontecendo."

As ruas de Manama refletem a tensão do país, A relativa tranquilidade de hoje é mantida sob um forte esquema militar, com tanques e veículos armados nos principais cruzamentos da capital. Os piores episódios de violência ocorreram em 16 e 17 de fevereiro, quando - após protestos que deixaram um morto - a polícia abriu fogo contra o cortejo fúnebre, matando mais um manifestante e ferindo dezenas.

"Esse foi o momento em que tudo realmente mudou", diz o jornalista Mazen Mahdi. "Foi aí que as pessoas entenderam que o governo não estava realmente preocupado com ninguém a não ser com si próprio. As pessoas se uniram desde então e é praticamente impossível encontrar alguém que continue apoiando este regime", conclui.

Mahdi, que trabalha para a agência de notícias alemã DPA, corrobora a versão apresentada por Rajab. "Eu mesmo fui preso em março. Levei vários socos e me mantiveram sem comida ou água por algumas horas, até descobrirem para quem eu trabalhava e perceberem que as repercussões da minha prisão poderiam ser extremamente negativas. Desde então, não me detiveram mais, mas meus telefones e passos são constantemente monitorados", diz. "O governo entrou em pânico quando percebeu que os bareinitas queriam reformas reais e apelou para a carta sectária e a violência total", analisa Mahdi. "Por isso pediram socorro aos Estados sunitas e por isso estamos com os Exércitos dos países do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes, Catar, Kuwait e Omã) presentes aqui. O grande temor desses países é que os xiitas assumam o poder e se aliem ao Irã."

"Os Al-Khalifa implementaram uma política sectária onde somente sunitas podem ascender aos postos mais altos de trabalho. Os xiitas têm menos possibilidades, ainda que sejam mais qualificados. Xiitas são impossibilitados até de servir nas forças de segurança nacional - o governo traz paquistaneses e bengalis, os naturaliza e treina para que controlem a população, criando uma força de mercenários estrangeiros doutrinados para obedecer ao governo e suspeitar dos xiitas", diz Abdul Karim Yousuf Radhi, dirigente da Federação-Geral de Uniões Sindicais do Bahrein (FGUSB). "Inspirada principalmente pelas políticas truculentas do primeiro-ministro Khalifa bin Salman Al-Khalifa (no cargo desde 1971), a família real tem receio de que a maioria xiita do país tente derrubá-la por questões religiosas, o que é um absurdo. Xiitas e sunitas convivem muito bem na sociedade do Bahrein."

O sindicalista parece ter razão. Nas ruas de Manama é comum ver xiitas e sunitas vivendo e trabalhando juntos. Quando os protestos na Praça da Pérola se iniciaram em fevereiro, o que se via era grupos carregando bandeiras nacionais e gritando o slogan "xiitas e sunitas são irmãos - este país não está à venda".

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