Regime iraniano persegue até os cachorros

Animais são vistos como impuros pelo Islã e considerados uma futilidade da cultura ocidental

O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h03

No Irã, o cachorro não é o melhor amigo do homem. O regime iraniano voltou a combater a posse de cães, vistos como impuros pelo islamismo. No entanto, o farmacêutico Soroush Mobaraki, dono de pet shop em Teerã, diz que as vendas estão aquecidas, apesar do medo de que os bichos sejam apreendidos e seus donos, multados. "Vendemos 20 cães por mês, mas sei de outros lugares que vendem muito mais", diz.

Durante décadas, ter um cachorro em casa era uma raridade. Cães de guarda, pastores e de caça sempre foram aceitos, mas, nos últimos anos, as autoridades se assustaram com a quantidade de gente de classe média que adquiriu um bicho de estimação para imitar a cultura ocidental.

"As pessoas querem ter um cachorro por status, do mesmo jeito que querem ter um carro de luxo", afirma Mobaraki. Os clérigos andam furiosos com os iranianos que vestem seus cães com roupas e acessórios ocidentais e desfilam com eles em carrões. "No Ocidente, muita gente tem mais amor por seus cachorros do que por mulheres e filhos", disse o aiatolá Naser Shirzi. A declaração, assim como um decreto emitido por ele, levou o Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica a proibir todos os meios de comunicação de veicular comerciais sobre animais de estimação. A restrição, adotada em 2010, obrigou muitos criadores a manter seus cães escondidos.

A polícia já reforçou a repressão aos cães e tem abordado pessoas que passeiam com os animais na rua. "Carros transportando cães também serão apreendidos", anunciou, em abril, o vice-chefe da polícia iraniana, Ahmad Reza Radan, segundo a agência Fars.

Ativistas dos direitos dos animais questionam a legalidade da lei e acusam o governo de promover uma apreensão generalizada de cães e de levá-los para "locais não revelados". "As pessoas estão sendo informadas de que seus animais serão mortos e não recebem documento confirmando a apreensão", diz Bahar Mohebi, diretor de um hospital veterinário de Teerã.

As ameaças da polícia parecem ter realmente assustado os donos de cães, levando-os a passear com seus animais em áreas isoladas ou a optar por atendimentos veterinários em casa. A proibição de anúncios relacionados a animais levou muita gente a recorrer à internet.

"A maior parte dos clientes visita o nosso site para escolher o cachorro que quer comprar", diz Mobaraki. As transações online intensificaram-se depois que parlamentares apresentaram, em 2011, um projeto de lei proibindo a presença de cães em locais públicos sob a alegação de que os animais representam um "problema cultural".

Os iranianos hoje encontram na rede escolas de adestramento e hotéis para cachorros. Páginas temáticas em redes sociais também são comuns. A situação, porém, tem aspectos negativos. Há casos de anúncios falsos, que postam fotos de belos animais. Ao receber o bicho, porém, o cliente descobre que não foi o cão que escolheu. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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