Regime se aferra ao superado 'contrato social' de Nasser

Mubarak insiste em governar por lei marcial coercitiva e com base em uma rede restrita de clientelismo para a elite civil e militar

YASSER EL-SHINNY, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Segundo um clássico provérbio árabe, uma inundação começa com uma gota. Para os cidadãos de todo o Oriente Médio que aspiram à liberdade, a Tunísia foi a primeira chuva. Há duas semanas, ninguém poderia prever a derrubada do regime repressivo de Zine el-Abidine Ben Ali naquele país.

Hoje, cidadãos e autoridades de todo o Oriente Médio perguntam-se quando, e não se, o "cenário da Tunísia" poderá aplicar-se completamente ao Egito. Os egípcios enfrentam há décadas um regime autoritário cujo governo se caracteriza pela repressão, corrupção e estagnação política e econômica.

O contrato social que o ex-presidente Gamal Abdel Nasser tinha com os egípcios - libertar as terras árabes das potências coloniais, subsidiar os gêneros de primeira necessidade e garantir o emprego aos jovens - vem sendo aplicado há 30 anos. O Egito mantém um tratado de paz com Israel, embora este continue ocupando territórios palestinos, sírios e libaneses. O governo também pôs em prática uma liberalização econômica sem se preocupar com as consequências para o povo egípcio. Apesar de obter um moderado crescimento econômico, a estratégia empobreceu milhões, tirando-lhes o emprego.

A desigualdade atingiu níveis nunca vistos na história moderna do Egito. Segundo a ONU, pelo menos 23% da população vive abaixo da linha de pobreza (ganhando US$ 2 ao dia). Até 2020, a população egípcia chegará aos 100 milhões de habitantes - a maioria jovens de menos de 30 anos: a receita para a agitação social. Entretanto, o regime de Hosni Mubarak se recusa a oferecer aos egípcios um novo contrato social com representação democrática e liberdade política. Ele opta por governar principalmente por meio de uma lei marcial coercitiva e por uma rede restrita de clientelismo político civil e militar.

Há alguns anos o Egito está agitado, mas o levante na Tunísia ofereceu aos egípcios a prova viva de que, se quiserem mudança, deverão fazê-la com as próprias mãos. Enquanto milhares de egípcios vibravam com as multidões na Tunísia, alguns jovens ativistas convocaram um "dia de revolta contra a corrupção, injustiça, desemprego e tortura". O protesto que se iniciou no Facebook e pretendia coincidir com um feriado que homenageava a polícia, foi menosprezado pelo governo e pela oposição "oficial".

Os partidos Wafd e Tagammu, bem como a Irmandade Muçulmana - assim como o dissidente Mohamed ElBaradei -, decidiram não participar dos protestos. O Ministério do Interior, procurando desesperadamente reabilitar sua imagem, resolveu tolerar as manifestações - prevendo o comparecimento de apenas algumas centenas de ativistas. No entanto, dezenas de milhares de cidadãos apolíticos uniram-se às manifestações. Os protestos se espalharam a outras cidades. "Mubarak, o avião está esperando por você", muitos gritavam, referindo-se à fuga de Ben Ali para a Arábia Saudita. Os islâmicos, principalmente a Irmandade Muçulmana, não participaram oficialmente das primeiras manifestações. Como a Tunísia, o Egito flerta com a revolução democrática, e não com a tomada do poder pelo Islã.

Tradicionalmente, os regimes autoritários entram em colapso quando as pessoas têm a possibilidade de sustentar seus protestos por muito tempo e num amplo território geográfico. Também caem quando as forças de segurança desobedecem às ordens de matar manifestantes pacíficos. No caso da Tunísia, 78 tunisianos foram mortos antes que os militares se recusassem a continuar. No da revolução iraniana de 1979, as forças do xá mataram milhares antes de se render.

Em termos históricos, a pressão externa é fundamental para isolar os ditadores e provocar divisões nos regimes. Este fator deveria ser motivo de preocupação entre os bravos manifestantes nas ruas do Egito. Os EUA investiram significativamente na sobrevivência de Mubarak, que consideram vital para os interesses americanos na região. Até o momento, Washington tem se mostrado tímido. Apesar do apoio retórico dos EUA à democratização no Oriente Médio, muitas vezes eles se mostram míopes e não enxergam além dos seus interesses correntes. Por exemplo, o governo de George W. Bush desistiu de sua "Agenda da Liberdade" na região depois que a Irmandade Muçulmana ganhou algumas cadeiras no Parlamento nas eleições de 2005 e o Hamas registrou ganhos entre os palestinos em 2006.

Observando o desenrolar dos acontecimentos a partir de Washington, as autoridades americanas devem ter em mente que, quando ocorrem mudanças de regime, as populações frequentemente não esquecem dos que trabalharam para sustentar a velha guarda. Os EUA agora devem prestar mais atenção às reivindicações dos egípcios. Como os iranianos, talvez os egípcios nunca esqueçam nem perdoem os que os mantiveram sob o controle de um regime opressor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CONFERENCISTA DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DA AMÉRICA

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