Regiões chinesas reagem à hegemonia da língua mandarim

Das remotas montanhas do Tibet aos arranha-céus de Xangai e Cantão, uma improvável polêmica vem ao mesmo tempo irritando a unindo populações díspares ao longo do território chinês --o idioma.

JAMES POMFRET E FARAH MASTER, REUTERS

22 de novembro de 2010 | 11h33

Os 1,3 bilhão de chineses são educados praticamente só em mandarim, a língua chinesa oficial, mas as várias décadas de estímulo ao idioma de Pequim não conseguiram eliminar o apego popular às línguas e dialetos locais.

O cantonês, o xangainês e o tibetano estão sendo cada vez mais raros nas rádios, TVs e salas de aula, o que gera protestos populares contra um regime pouco afeito à diversidade cultural.

No final de julho, num ato público em Cantão, no sul do país, os manifestantes cercaram policiais e gritaram xingamentos, exigindo a proteção ao idioma cantonês.

"Os manifestantes estavam muito unidos. Todos nós tínhamos uma só meta: proteger nossa própria língua", disse a ativista Michelle, uma dos autointitulados "defensores culturais".

Protestos contra as autoridades são raros neste país, onde o regime comunista valoriza a estabilidade acima de tudo. Os protestos linguísticos surpreendem as autoridades, mais acostumadas a receberem queixas sobre questões fundiárias, corrupção e poluição.

Um protesto posterior em Cantão, organizado pela Internet, foi rapidamente abafado pela polícia e pelos censores da rede, num sinal do desconforto do Partido Comunista com a questão.

Mesmo assim, o governo recuou ligeiramente, prometendo que as transmissões de rádio e TV em cantonês serão permitidas em Cantão, ou Guangzhou, um dos poucos lugares da China onde a imprensa estatal usará idiomas locais.

Segundo pesquisas do governo, apenas cerca de metade dos 1,3 bilhão de chineses fala mandarim, e no vasto interior do país é praticamente impossível ouvir a língua oficial numa conversa coloquial.

Em outubro, estudantes de origem tibetana tomaram as ruas da província de Qinghai, no oeste, para reclamarem da suposta marginalização da sua língua no sistema educacional local.

A exigência do mandarim como requisito para o sucesso profissional na China leva muitos tibetanos e membros de outras etnias a priorizarem o idioma de Pequim em detrimento das suas línguas.

Embora esses bolsões de indignação linguística não devam degringolar para protestos descontrolados, a erosão da diversidade idiomática pode alimentar ressentimentos contra o regime central.

"Isso realmente nos preocupa, porque vemos as culturas de outras minorias étnicas, inclusive os tibetanos, sumirem lentamente e serem assimiladas. Se Pequim conseguir persuadir a próxima geração de crianças a usarem o mandarim, (o regime) terá tido certo sucesso", disse o ativista Choi Suk-fong, de Hong Kong, que ajuda a organizar protestos pelo idioma cantonês na cidade semiautônoma.

(Reportagem adicional de Ralph Jennings em Taipé)

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