AP Photo/Andres Kudacki
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Rei da Suécia diz que país falhou no combate ao coronavírus em meio à disparada de casos

Com taxa de letalidade superior à dos vizinhos, país escandinavo registrou 7.802 mortes com abordagem menos restrita contra o coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 10h17

ESTOCOLMO - Apesar da adoção de medidas mais rígidas pelas autoridades nas últimas semanas, a Suécia e sua atípica estratégia contra o coronavírus enfrentam novamente grandes dificuldades com a temida segunda onda, que o país nórdico acreditou durante muito tempo que conseguiria evitar.

O rei da Suécia, Carl XVI Gustaf afirmou em um programa nacional de televisão nesta semana que 2020 foi um ano terrível e que a estratégia do país contra o vírus falhou. Até o momento, o país escandinavo tem 350 mil casos e 7.802 mortes decorrentes do vírus. "Acredito que fracassamos", disse o rei. "Muitas pessoas morreram, é terrível. É algo que nos faz sofrer". 

Serviços de reanimação sob pressão, demanda por reforços de profissionais de saúde qualificados em Estocolmo e taxa de mortalidade até 10 vezes superior a dos vizinhos nórdicos: esse foi o resultado da estratégia sueca. 

"As autoridades de saúde pública haviam preparado três cenários diferentes. Tomamos como referência o pior, mas a realidade está duas vezes pior do que se temia", afirmou Lars Falk, diretor da UTI no hospital Karolinska, de Estocolmo. "Devemos fazer ainda mais, sobretudo durante o período de festas de fim de ano". 

"Lamentavelmente, o nível de contágios não diminui. Isto é muito preocupante", declarou o diretor de saúde da região de Estocolmo, Björn Eriksson, que descreveu uma "pressão extrema sobre o sistema de saúde. Não vale a pena beber algo depois do trabalho, encontras pessoas fora de casa, fazer compras de Natal ou tomar um café: as consequências são terríveis".

No início da semana, as internações por covid-19 na Suécia igualaram o pico de abril, com quase 2.400 pacientes. O número de mortes chegou a 7.802 na quarta-feira - mais de 1.800 desde novembro - e o de novos casos se aproxima do nível recorde. São mais de 6 mil casos por dia em média, de acordo com os dados oficiais. 

Novas medidas

Sem máscara, fechamento de bares, restaurantes e lojas, nem quarentena obrigatória, a Suécia se distinguiu por uma estratégia baseada essencialmente em "recomendações" e poucas medidas coercitivas. Mas diante do aumento expressivo dos casos, as autoridades anunciaram recomendações mais estritas - como o encontro apenas com pessoas da mesma residência. No entanto, o não cumprimento dessas medidas não é penalizado.

Ao contrário de uma visão difundida principalmente no exterior, o país escandinavo nunca perseguiu a imunidade coletiva. As autoridades de saúde, no entanto, consideraram por muito tempo que o nível elevado de contaminação permitiria, sem dúvida, conter de maneira mais fácil um ressurgimento da epidemia a longo prazo.

"Acredito que teremos uma contaminação relativamente baixa no outono", afirmou em agosto o epidemiologista chefe do país, Anders Tegnell. Os fatos deram razão a Tegnell por algum tempo, mas a segunda onda, que a Suécia acreditava que conseguiria evitar, terminou atingindo o país um pouco mais tarde que em outras regiões da Europa.

Apesar das críticas de uma comissão independente na terça-feira, o primeiro-ministro Stefan Löfven se negou até o momento a chamar a estratégia de fracasso. "A maioria dos especialistas não viu a onda diante deles, falavam de focos localizados", declarou.

Nas últimas semanas foram adotadas algumas medidas, como o fechamento de alguns centros de ensino, a proibição das reuniões com mais de oito pessoas e a venda de bebidas alcoólicas a partir das 22h00.

O governo recuperou um projeto de lei que permitirá fechar as lojas e os restaurantes. Mas a entrada em vigor está prevista para meados de março. Como o restante da União Europeia, a Suécia tem esperança na vacinação, que espera iniciar ainda em dezembro, com o objetivo de imunizar toda a população até meados de 2021. / AFP

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