REUTERS/Toby Melville
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Reino Unido discute resposta à covid-19 ante previsão de 100 mil novos casos por dia

Representantes da classe médica cobram agilidade do governo para reimpor medidas restritivas para conter o vírus, mas autoridades defendem continuidade do plano de vacinação como única via no momento

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 15h00

Quando o Reino Unido derrubou as últimas restrições relacionadas à covid-19, reabrindo casas noturnas, bares e outros estabelecimentos para funcionamento normal, em 19 de julho, milhares de pessoas saíram às ruas para comemorar o que foi chamado de “Dia da Liberdade” - que prometia ser o marco da volta à vida pré-pandêmica.

Três meses depois, contudo, o otimismo deu vez à preocupação. Com um novo pico de infecções, que passou de 49 mil novos casos diários na quarta-feira, 20, autoridades e especialistas discutem sobre a necessidade da adoção de novas medidas diante do cenário atual - em que o governo já admite que o número de casos pode chegar ao patamar de 100 mil por dia.

O número foi mencionado pelo secretário de Saúde e Assistência Social britânico, Sajid Javid, na quarta, ao convocar milhões de pessoas aptas a serem vacinadas a se apresentarem para imunização. Javid também pediu que as pessoas voltassem a utilizar máscaras em ambientes lotados e que fizessem testes de covid-19 antes de se reunirem nas comemorações de fim de ano.

Apesar dos cuidados indicados pelo secretário, críticos apontam que o governo britânico tem passado uma mensagem confusa sobre o momento atual da pandemia no país, e principalmente não tem adotado medidas adicionais enquanto o número de casos ainda cresce. Nesta quinta-feira, 21, o ministro da Saúde Edward Argar afirmou em entrevista à BBC que embora o NHS esteja sob “enorme pressão”, não é o momento certo para introduzir quaisquer medidas adicionais para controlar a disseminação da covid-19.

De acordo com o ministro - que é parlamentar pelo Partido Conservador, sigla do premiê Boris Johnson - o governo ainda trabalha com o "plano A", que consiste em confiar na ampliação da campanha de vacinação, definida por ele como “uma corrida” entre as vacinas aplicadas nos braços das pessoas e o vírus.

“Nós ainda estamos vencendo a corrida neste momento, mas a liderança está diminuindo. Então o que temos que fazer é dar um sprint final até a linha de chegada”, disse o ministro, que também convocou a população a procurar pontos de vacinação e completar o ciclo de imunização.

A não adoção das medidas adicionais de proteção, no entanto, é contestada por especialistas. O presidente do Conselho Médico Britânico, Chaand Nagpaul, acusou as autoridades de serem "deliberadamente negligentes" depois que o secretário de saúde descartou imediatamente a implementação do plano B do governo para o coronavírus - que consistiria na volta de algumas regras sobre o uso de máscaras e trabalho remoto.

“É uma negligência intencional do governo de Westminster não tomar nenhuma ação adicional para reduzir a propagação da infecção, como o uso obrigatório de máscara, distanciamento físico e requisitos de ventilação em ambientes de alto risco, especialmente em espaços internos lotados. Essas são medidas que são a norma em muitas outras nações.”, disse Nagpaul, em fala registrada pelo jornal britânico The Guardian.

Especialistas apontam um aumento alarmante de casos no Reino Unido desde o começo de outubro, e a proximidade do inverno no Hemisfério Norte intensifica ainda mais essa preocupação.

Apenas nos últimos 28 dias, 1.064.325 casos de covid-19 foram diagnosticados em território britânico, elevando o reino à segunda posição em número de casos no período, atrás apenas dos EUA, que registrou mais que o dobro, de acordo com dados da universidade americana Johns Hopkins.

Em outra entrevista, à Sky News, o ministro da saúde britânico se negou a traçar um limite claro para que condições fariam o governo colocar em prática o plano B sobre a pandemia, em termos de número de casos ou hospitalizações.

“Temos um certo espaço neste momento [no sistema de saúde], continuamos monitorando de hora a hora, dia a dia, para ver o que está acontecendo com esses números, tanto em termos de infecção, mas também crucialmente em termos de hospitalização”, disse Argar ao Times Radio. “Nossa avaliação no momento é de que  a maneira mais eficaz de continuar o controle [da pandemia] é que as pessoas recebam as doses de reforço.”

No momento, 67% da população do Reino Unido completou a vacinação contra a covid-19, e outros 6% estão parcialmente imunizados - o que significa que 73% têm algum grau de imunização, de acordo com os dados do World in Data.

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