Reino Unido expressa ´grande preocupação´ com caso Rushdie

Ministro paquistanês incitou ataques em represália à homenagem a escritor

Agencia Estado

21 Junho 2007 | 13h05

O Reino Unido expressou "grande preocupação" sobre os comentários de um ministro paquistanês de que a condecoração do escritor anglo-indiano Salman Rushdie justificaria atentados terroristas. A informação foi divulgada pelo embaixador do Reino Unido em Islamabad, Robert Brinkley, nesta terça-feira, 19.Ele fez a declaração logo após ser convocado para uma reunião com autoridades paquistanesas, em Islamabad, para discutir o assunto. "O embaixador deixou claro que o governo mostra grande preocupação pelo que um ministro defendeu", segundo informou o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores britânico. "O governo britânico esclarece ainda que nada justifica atentados."Na última segunda-feira, o ministro para Assuntos Religiosos do Paquistão, Mohammed Ijaz ul-Haq, afirmou que "esta é uma ocasião para que os 1,5 bilhão de muçulmanos olhem para seriedade desta decisão", durante discurso no Parlamento de Islamabad.A condecoração foi concedida pela rainha Elizabeth II ao autor de Versos Satânicos no último sábado por sua "contribuição à literatura no Reino Unido". Rushdie, que recebeu o título de Cavalheiro do Império Britânico, foi condenado à morte à revelia pela República Islâmica do Irã em 1989, por publicar uma obra que as autoridades iranianas consideraram blasfêmia contra o Islã e ao profeta Maomé."O Ocidente está acusando os muçulmanos de extremismo e terrorismo. Se alguém explodir uma bomba no corpo será legítimo a menos que o governo britânico se desculpe pelo título de ´sir´", diz o ministro paquistanês.Na segunda, ministros paquistaneses exigiram um pedido de desculpas pela condecoração. Uma resolução condenando o autor foi aprovada por unanimidade no Parlamento do Paquistão ao mesmo tempo que diversos protestos ocorriam pelo país.Segundo a resolução da câmara alta do Parlamento, a decisão britânica mostra uma "indiferença evidente em direção aos sentimentos dos muçulmanos" e criará "uma maior divisão entre o Ocidente e o Islã". "Essa decisão é deplorável", afirmou o ministro de Relações Exteriores do Paquistão, Tasnim Aslam.Brinkley defendeu a condecoração e tentou minimizar a situação. "É um equívoco sugerir que isso é de alguma forma um insulto ao Islã ou ao profeta Maomé", afirmou em uma declaração.IrãA homenagem também rendeu duras críticas vindas de Teerã. O governo iraniano condenou o acontecimento no domingo como "um claro caso de islamofobia". O gesto, "com toda certeza, colocará as sociedades muçulmanas contra as autoridades britânicas", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Mohamad Ali Hosseini, em sua entrevista coletiva aos domingos.A condecoração "mostra que insultar os sacramentos islâmicos não é algo casual, mas parte de uma corrente dirigida e apoiada por alguns países ocidentais", segundo Hosseini.No leste do país, estudantes queimaram bonecos da rainha Elizabeth II e de Rushdie, sob gritos de "matem-nos". Um outro grupo ativista dizia: "Nós protestamos contra o grande mal da Terra, o diabo Salman Rushdie, por ser chamado de ´sir´", segundo um cartaz.Políticos classificam Rushdie como "blasfemador". O escritor "ganhou notoriedade entre os muçulmanos pelos fortes insultos e blasfêmias com as quais ele retratou figuras islâmicas".AniversárioAhmed Salman Rushdie, nascido em Mumbai, na Índia, celebra nesta terça 60 anos. Educado em uma escola católica, Rushdie ficou famoso com a publicação de seu segundo romance, Os Filhos da Meia-noite (1981).Após a publicação de Versos Satânicos, sua quinta obra, o romancista teve que fugir por quase dez anos depois que o líder da revolução islâmica no Irã, aiatolá Khomeini, ofereceu US$ 3 milhões aos iranianos e US$ 1 milhão aos cidadãos de outras nacionalidades para que o matasse.Durante esse tempo, as autoridades do Irã não levaram em consideração as pressões internacionais e a conversão de Rushdie ao Islã, anunciada pelo escritor em 1990.Em 24 de setembro de 1998, o então presidente iraniano, o moderado Mohammad Khatami, anunciou nas Nações Unidas que dava por encerrado o "caso Rushdie", no sentido de que seu governo não agiria contra o escritor.Autor de 13 livros, Rushdie atualmente vive em Nova York, onde acredita ter mais proteção contra extremistas islâmicos que em Londres.

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