AP Photo/Virginia Mayo
AP Photo/Virginia Mayo
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Reino Unido fecha parênteses

No fundo, ninguém acreditava. O carro seguia para o precipício, a toda velocidade, mas pararia no último momento, ainda roncando, à beira do vácuo. Em seguida, daria marcha à ré e retomaria seu lugar na caravana europeia. Mas não

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

25 Junho 2016 | 05h00

No fundo, ninguém acreditava. O carro seguia para o precipício, a toda velocidade, mas pararia no último momento, ainda roncando, à beira do vácuo. Em seguida, daria marcha à ré e retomaria seu lugar na caravana europeia.

Mas não. O carro não freou. Foi até o fim em sua doida corrida. A Grã-Bretanha deu adeus à Europa, a Bruxelas, à Comunidade Europeia. O Reino Unido fecha os parênteses de 43 anos de vida comum com a Europa. Retoma seus espíritos. Renova os laços dourados e negros de sua longa história.

No século 19, o grande historiador Jules Michelet começava assim seu curso: “Senhores, a Inglaterra é uma ilha”. E hoje, tanto pior para Maastricht e o Tratado de Roma, tanto pior para o túnel sob a Mancha: a Grã-Bretanha continua uma ilha.

Londres caminha para o desastre? E, se desastre houver, arrastará consigo no mergulho ousado os caros vizinhos, os 27 membros da União Europeia? Claro, o pior nem sempre ocorre. Mas na manhã de ontem, quando as pessoas caminhavam em Bruxelas para os escritórios da UE, a sensação era de que estavam para entrar no quarto de um doente grave – para alguns, agonizante.

Os 40 mil funcionários da UE, sempre pálidos, formais e distintos, estavam em pé de guerra. Mas que podiam fazer, esses coitados? Com telefones, smartphones e outras máquinas em ação, informavam-se sobre seu futuro, sobre as reações de Varsóvia e Nova York, sobre bolsas e bancos, temendo as reverberações do choque dado por Londres na UE.

Estamos no escuro, sem enxergar dez passos à frente. Desde a manhã de ontem, o velho continente patina em um labirinto do qual nenhum GPS conhece as coordenadas. Só uma coisa é certa: não é só em Londres ou Glasgow que estão os problemas. Estão em cada peça do quebra-cabeça que se chama Europa.

Por exemplo: podem ocorrer reações em cadeia. Ao votar pela saída, os britânicos quebraram um tabu. Autorizaram qualquer um a pensar naquilo que, até quinta-feira, era um sacrilégio impensável.

Em muitos países da UE já se sonha com referendos ao estilo de David Cameron. Na França, os populistas estão eufóricos. Persuadida de que a crise dos migrantes (que horror, esses africanos invadindo a Europa...), foi alimentada pela Comunidade Europeia, Marine Le Pen exige um referendo. O mesmo ocorre nas alas populistas dos Países Baixos. E não é só preocupação da extrema direita. A extrema esquerda nutre os mesmos sonhos – por exemplo, na França, com o brilhante Jean-Luc Mélenchon.

Aí surgem novos perigos, no seio do próprio Reino Unido: a Escócia, que é favorável à Europa, pode aproveitar a ocasião para agarrar sua independência. A Irlanda pode exigir a unificação das duas Irlandas, com risco de reativar a imensa guerra entre católicos e protestantes. E que vai acontecer com Gibraltar, esse minúsculo pedaço da Inglaterra cravado na  Espanha?

E os quase fascistas da parte oriental do continente – húngaros, poloneses, eslovacos, checos? Mas o essencial continua sendo o que a própria Grã-Bretanha vai decidir. Quem conseguir prever o que acontecerá será um ótimo profeta. A City londrina vai resistir? Os financistas que pululam em Londres vão, de algum modo, se reagrupar em Paris ou Frankfurt?

E como a Grã-Bretanha vai sair do infernal imbróglio jurídico montado entre Londres e os outros países europeus há 43 anos?

Seria agora a hora de tentar explicar o “surto de loucura” dos britânicos (principalmente dos ingleses). Não vou me aventurar a tanto. Pode-se, claro, invocar razões contábeis, econômicas, financeiras; mas acho que às vezes as pessoas não são racionais, não são máquinas de calcular. Elas obedecem também a seus prazeres, seus ódios, suas vertigens. Seu inconsciente.

A Inglaterra nunca gostou de fato da Europa, mesmo antes do nascimento da União Europeia. Lutou infatigavelmente, heroicamente, contra os franceses na Idade Média (Guerra dos Cem Anos); contra Napoleão; em todos os mares do globo contra os espanhóis (a Invencível Armada); de novo contra os franceses (Trafalgar); disputou com a França o Oriente Médio, a África, o Canadá e mesmo a Índia.

Nessa época, a Inglaterra era senhora da História – terrível, orgulhosa, bela, cruel... Quando se tem na memória um passado desses, povoado de fortalezas com canhões e fuzis explodindo no cérebro, é difícil viver uma aposentadoria calma e discreta, com chás e pantufas, num retiro confortável e elegante no seio da União Europeia.

Mas foi-se o tempo em que a Inglaterra era poderosa e, ao mesmo tempo, odiada e desejada. E um país, como um homem ou uma mulher, tem sempre necessidade de se sentir objeto de desejo, mesmo de desejo obscuro.

Isso é uma explicação? Certamente que não, e pouco importa. Pensadores maiores que eu fracassaram em explicar. Como Rudyard Kipling: “But The English – Ah the English! They are quite a Race apart” (Os ingleses, ah, os ingleses... Eles são uma raça à parte). / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.