Joe Klamar/Pool Photo via AP
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Europa ameaça impor sanções ao Irã, que volta a atacar americanos no Iraque

Reino Unido, França e Alemanha acionaram mecanismo para obrigar iranianos a cumprirem tratado; medida é uma resposta ao movimento de Teerã de aumentar número de centrífugas e enriquecer urânio

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 10h08
Atualizado 16 de janeiro de 2020 | 15h00

Pela primeira vez desde que o acordo nuclear com o Irã foi assinado, em 2015, Reino Unido, França e Alemanha ameaçam impor de novo sanções aos iranianos. Os três países acionaram nesta terça-feira, 14, o mecanismo de solução de controvérsias do pacto, emitindo um ultimato a Teerã. Enquanto a pressão crescia em Bruxelas, a base iraquiana de Taji, que abriga tropas dos EUA, ao norte de Bagdá, foi atingida por cinco foguetes – sem deixar feridos. 

De acordo com relatos de militares iraquianos, foram cinco disparos de foguetes Katiushas, de fabricação soviética. “Nenhum soldado da coalizão foi atingido”, disse o coronel americano Myles Caggins, porta-voz das tropas. Apesar de ninguém ter assumido a autoria do ataque, os EUA acreditam que milícias xiitas pró-Irã, que atuam no Iraque, estejam por trás da ação. 

Ataques a bases iraquianas que abrigam tropas dos EUA vêm sendo cada vez mais frequentes nas duas últimas semanas. No domingo, oito foguetes Katiushas foram lançados contra a base de Balad, onde também há soldados americanos – quatro soldados iraquianos ficaram feridos. 

Desde que os EUA ordenaram a morte do general Qassim Suleimani, no dia 3, o regime iraniano vem caminhando na corda bamba, tentando demonstrar força para a população insatisfeita com a crise econômica e prometendo vingança, e buscando ao mesmo tempo não exagerar na retaliação, para não provocar um conflito devastador contra os americanos. 

Uma das respostas anunciadas pelo regime, na semana passada, foi a retomada do enriquecimento de urânio e o aumento do número de centrífugas, o que praticamente sepultou o acordo nuclear de 2015.

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Os detalhes do acordo nuclear negociado em 2015 com o Irã

Teerã e o grupo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia, China mais Alemanha) colocaram fim ao impasse de anos sobre o programa nuclear iraniano

Na ocasião, Teerã anunciou a "quinta e última fase" de seu plano para reduzir seus compromissos nucleares em resposta à saída dos Estados Unidos do acordo em 2018, assim como ao restabelecimento das sanções norte-americanas que estrangulam sua economia. O país disse que não se sente mais obrigado a respeitar nenhum limite "sobre o número de centrífugas" usadas na produção de combustível nuclear.

Nesta terça-feira, os europeus que assinaram o pacto deram o passo mais agressivo contra o Irã desde então. "Não temos outra escolha, dadas as ações do Irã, além de expressar nossas preocupações quanto ao fato de o Irã não cumprir seus compromissos com o JCPOA e acionar a Comissão Mista no âmbito do Mecanismo de Solução de Controvérsias", ressaltaram os europeus.

"Ao fazer isso, nossos três países não se somam à campanha que tende a exercer uma pressão máxima contra o Irã", acrescentaram, dando a entender que não querem se unir à política de sanções dos Estados Unidos.

Fontes disseram ao New York Times que a decisão era esperada havia mais de uma semana, mas foi adiada quando os Estados Unidos mataram o general Qassim Suleimani em ataque com repercussões que ainda se alastram no no Irã e em toda a região.

O acionamento do mecanismo de solução de controvérsias prevê um prazo de 60 dias de negociações com o Irã, dando espaço para os iranianos voltarem “ao pleno cumprimento do acordo”. 

Caso as negociações não avancem e o Irã continue violando os termos do acordo, sanções que estavam suspensas pelo tratado serão reimpostas pelas Nações Unidas ao Irã, incluindo o embargo de armas.

“À luz do não cumprimento iraniano do acordo nuclear, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha acionaram o Mecanismo de Resolução de Disputas no âmbito do #JCPoA”, escreveu o Departamento de Relações Exteriores em sua conta no Twitter.

Em declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha e Reino Unido, os países dizem “compartilhar interesses fundamentais de segurança comum, juntamente com nossos parceiros europeus”, mas não podem “aceitar a contínua violação do Acordo”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou-se do acordo em 2018 e impôs várias rodadas de sanções americanas ao Irã. Em resposta, Teerã ultrapassou repetidamente os limites que o acordo impusera ao seu programa nuclear, levantando temores de que pudesse estar perto de construir uma bomba atômica.

Os europeus querem salvar o acordo e convencer Washington e Teerã a iniciar um novo conjunto de negociações sobre o desenvolvimento de mísseis e as atividades regionais do Irã, disse uma autoridade europeia ao New York Times.

Mas os três países europeus, todos signatários do acordo, sentiram claramente que tinham que responder ao movimento progressivo do Irã, afastando-se do cumprimento dos limites do acordo em centrífugas e enriquecimento de urânio./NYT e AFP

 

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