Henry Nicholis/REUTERS
Henry Nicholis/REUTERS

Reino Unido identifica seis casos da variante de Manaus do coronavírus

Casos da mutação P1 foram identificados pela primeira vez na Inglaterra e Escócia; tema é destaque na imprensa britânica nesta segunda-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2021 | 17h50
Atualizado 01 de março de 2021 | 15h09

LONDRES - O governo do Reino Unido enfrenta apelos por medidas mais restritivas nas suas fronteiras depois que autoridades de saúde revelaram estar procurando uma das seis pessoas infectadas com a variante de Manaus do novo coronavírus, cepa altamente transmissível. Os principais jornais do país destacaram a presença da variante brasileira. 

A P1 foi detectada pela primeira vez em três pessoas na Inglaterra e outras três que voaram do Brasil para a Escócia. Um deles, porém, é desconhecido, porque não preencheu o cartão de identificação que acompanha o teste. Apesar da descoberta, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que a nova variante não vai impedir a flexibilização do lockdown no Reino Unido - o país registrou nesta segunda o menor número de mortes desde 26 de outubro - 104 pessoas -, totalizando 122.953 vítimas. 

"Toda a nossa estratégia é seguir em frente de uma forma cautelosa, mas irreversível. E não achamos que haja qualquer razão para mudar isso agora", afirmou. "Temos uma das regras de fronteira mais duras do mundo para impedir a entrada de pessoas que possam ter variantes que causem preocupação".

Johnson disse ainda que o governo está fazendo um "esforço massivo" para conter a variante brasileira, que é duas vezes mais contagiosa. "Se você observar o que fizemos no caso da variante sul-africana, um esforço enorme foi feito lá. O mesmo está acontecendo agora para conter qualquer propagação da variante brasileira".

O líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, criticou a lentidão do governo em proteger as fronteiras e destacou o fato de o vírus viajar também por trechos indiretos. "Muitos vírus vieram de países onde não se originaram, mas as pessoas estavam vindo indiretamente, e é assim que as pessoas viajam", criticou. "Ainda acho que não protegemos nossas fronteiras da maneira que deveríamos. Quanto mais cedo isso for feito, melhor".

A presença da variante também levanta dúvidas sobre a possibilidade de viagens para o exterior durante as férias de verão na Europa, que estavam sendo cogitadas por parte da população à medida que a vacinação avançava e o governo compartilhava um calendário para a reabertura econômica. 

Nick Thomas-Symonds, o secretário do Interior britânico, disse que a situação é "profundamente preocupante". “É vital que façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para contê-la (a variante de Manaus). Mas esta é mais uma prova de que o atraso na introdução de uma quarentena em hotéis foi imprudente e a recusa contínua de implementar um sistema abrangente nos deixa expostos a mutações vindas do exterior". 

Seis casos

A Public Health England (PHE) diz que os testes em que a variante foi encontrada foram feitos antes da imposição das atuais medidas de quarentena obrigatória em hotéis —iniciada em 15 de fevereiro. O governo, porém, ainda não sabe se o infectado anônimo chegou do Brasil ou foi contaminado no Reino Unido.

A variante P1, também conhecida como variante B1128, compartilha algumas das mesmas mutações da variante sul-africana, que é altamente transmissível, e foi identificada pela primeira vez em Manaus, em janeiro. 

A PHE também está fazendo testes e rastreamento de todos os passageiros que chegaram no mesmo voo da Swiss Air Lines, o LX318, que saiu de São Paulo via Zurique e pousou em Londres no dia 10 de fevereiro. No entanto, um terceiro indivíduo, que não foi testado, está sendo procurado. Sua identidade é desconhecida porque ele não preencheu o cartão de registro que veio com o kit de teste da covid-19.

As autoridades disseram que o teste foi processado em 14 de fevereiro, então é provável que ele o tenha feito um ou dois dias antes. É improvável que a pessoa tenha feito o exame em um dos locais de teste regionais, onde a equipe pode verificar se os detalhes de contato foram fornecidos, mas pode ter realizado um teste doméstico ou de teste de surto local.

Dois dos casos ingleses são de uma única residência no sul de Gloucestershire, no sudoeste da Inglaterra, vindos de uma pessoa que voltou do Brasil um mês depois que a variante foi identificada pela primeira vez e cinco dias antes da política de quarentena dos hotéis entrar em vigor.

Um dos contaminados teria desenvolvido sintomas antes de fazer o teste. Seus contatos foram identificados e retestados, mas novos testes estão sendo implementados nas áreas próximas de Bradley Stoke, Patchway e Little Stoke como precaução.

Destaque na imprensa

A confirmação da chegada da variante brasileira foi destaque na imprensa britânica nesta segunda-feira, 1º. Alguns dos principais jornais do país, como The Guardian, The Times e The Daily Telegraph estamparam em suas manchetes a identificação da nova cepa de Manaus e demonstraram preocupação com a incerteza quanto a eficácia da vacina sobre o vírus. Veja algumas das principais capas.

A política de quarentena em hotéis, que visa proteger o Reino Unido contra novas variantes, entrou em vigor em 15 de fevereiro, após muito atraso. Na Escócia, todos os viajantes que chegam em voos internacionais devem entrar em quarentena em um hotel por 10 dias, enquanto na Inglaterra as regras se aplicam apenas a chegadas de 33 países da “lista vermelha”.

Três pessoas que vivem no nordeste da Escócia também testaram positivo para a variante P1 depois de voltar do Brasil via Paris e Londres. Eles foram identificados durante a auto-quarentena e, desde então, completaram seu período de isolamento de 10 dias. Outros passageiros do voo, que pousou em Aberdeen no início de fevereiro, estão sendo contatados por precaução.

Esta é a primeira vez que a variante P1 foi detectada no Reino Unido, embora outra variante brasileira chamada P2 tenha sido detectada anteriormente. Embora esteja sendo investigado, os primeiros sinais são de que a variante P2 não é mais transmissível.

Um relatório de pesquisadores brasileiros disse que a variante P1 estava "potencialmente associada a um aumento na transmissibilidade ou propensão para reinfecção de indivíduos". Estudos feitos por pesquisadores brasileiros trazem mais evidências de que cepa é mais contagiosa e mostram ainda que ela tem até 61% mais chance de escapar dos anticorpos formados em infecções prévias - além disso, ela aumenta em 10 vezes carga viral no corpo e é 2 vezes mais transmissível. 

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