Pablo Molina/EFE
Pablo Molina/EFE

Reino Unido propôs devolver Ilhas Malvinas apenas no ano de 2073

Para ex-diplomata argentino, lobby dos kelpers contra Argentina sempre foi forte e impediu acordo

Ariel Palacios - O Estado de S.Paulo,

03 de abril de 2012 | 23h31

BUENOS AIRES - Em 1974, a Grã-Bretanha propôs à Argentina um acordo no qual as Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) passariam formalmente para o Estado argentino em 99 anos. Os planos foram cancelados repentinamente por uma troca de governo em Londres e a morte do presidente Juan Domingo Perón.

Essa foi uma das várias idas e vindas das tumultuadas conversas anglo-argentinas sobre o arquipélago. "O lobby dos ilhéus contra a Argentina sempre foi muito forte em Londres e muito bem financiado", disse em entrevista ao Estado o embaixador Vicente Berasategui, que acompanhou as negociações entre Londres e Buenos Aires desde 1966 e foi embaixador na Grã-Bretanha na década passada.

Nos anos 60, a Grã-Bretanha estava disposta a entregar a soberania das ilhas à Argentina?

Em 1966, houve uma visita muito importante, a do secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Michael Stuart. Em 1965, havíamos conseguido a aprovação da resolução da ONU, que solicitava que o processo de conversas começasse. Na época, um dos integrantes do governo britânico, Lord Charlton, uma figura importante do Foreign Office, disse que considerava necessário chegar a um acordo com a Argentina porque "mais cedo ou mais tarde" as coisas desandariam e poderia haver uma guerra. Essa ideia foi rejeitada no Parlamento. E nisso houve influência fortíssima do lobby dos ilhéus, que sempre foi muito bem financiada. Depois, em 1971, houve o estabelecimento de comunicações com as ilhas. Graças a esse acordo, o governo argentino da época decidiu investir e construiu uma pista aérea nas ilhas, um serviço de transporte dos ilhéus para emergências médicas no continente, além de oferecer bolsas de estudo.

Nos anos 70, a Grã-Bretanha, que já havia perdido várias colônias em todo o mundo, tentou um acordo com a Argentina?

Em 1974, os britânicos propuseram à Argentina um "condomínio" sobre as ilhas. O então presidente Juan Domingo Perón foi consultado pela chancelaria argentina. "Sim", disse Perón. "A partir do momento em que a gente estiver ali nas ilhas, ninguém nos mandará mais embora", acrescentou o presidente. Ele tinha razão. Mas, logo depois, houve uma crise de governo em Londres, eleições, e mudou o partido no poder. Além disso, duas semanas depois, Perón morreu. A Argentina ainda não havia respondido à proposta britânica quando o novo governo em Londres a retirou. Depois disso, veio a iniciativa de uma negociação do tipo Hong Kong, que os britânicos propuseram. Fomos generosos demais com eles, aceitamos coisas que nem os britânicos achavam que íamos aceitar, entre elas um lease-back (transação na qual um lado vende a propriedade e a aluga por um longo tempo) de 99 anos. Na época, o governo militar queria aceitar qualquer coisa. Mas aí veio o lobby dos ilhéus e a oposição no Parlamento.

Em 1982, o general Leopoldo Fortunato Galtieri e a cúpula militar acreditavam que os EUA ficariam neutros no conflito com a Grã-Bretanha?

Quando Galtieri toma a decisão de desembarcar nas ilhas, por um compromisso com o almirante (Jorge) Anaya - que o havia respaldado para ser presidente meses antes -, nas Forças Armadas existia a crença de que os EUA respaldariam a Argentina, já que o país havia colaborado com os americanos na América Central. Os integrantes da junta militar estavam convencidos de que o governo de Ronald Reagan estava grato ao governo argentino e permaneceria neutro.

O governo militar, intensamente anticomunista, começou uma espécie de "travestismo ideológico" ao pedir ajuda à Líbia e tentar um respaldo da URSS?

Havia divisões internas sobre isso. Quando o chanceler Nicanor Costa Méndez foi à reunião de países não alinhados em Havana, onde se reuniu com Fidel Castro, por exemplo. Na ocasião, o representante da Força Aérea argentina disse que de jeito nenhum iria a Cuba e não embarcou no avião.

O que recomendaria para as conversas anglo-argentinas daqui para a frente?

Acho que ambos devem baixar o nível de confronto. Os britânicos tampouco ganham com essa situação atual. Além disso, será difícil para os britânicos recuperarem a influência que tiveram no passado.

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