NEIL HALL/EFE/EPA
NEIL HALL/EFE/EPA

Reino Unido tem campanha com elementos modernos e tradicionais 

Sem cartazes e outdoors pelas cidades, partidos recorrem a cartas e todo tipo de material impresso enviados aos eleitores; por outro lado, no mundo digital, propagandas são direcionadas por algoritmos

Célia Froufe, Correspondente / Londres

11 de dezembro de 2019 | 17h36

LONDRES - Um turista mais desatento que chegue a Londres na vésperas da eleição pode até não se dar conta de que os eleitores vão às urnas em breve. Não há cartazes pelas cidades, outdoors e os poucos pontos de panfletagem se resumem a saídas de escolas, supermercados e igrejas.

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Os britânicos costumam ser discretos em suas votações, que, no entanto, não saem dos jornais e TV. Em 2017, o mesmo ambiente foi verificado quando a então primeira-ministra, Theresa May, também antecipou as eleições gerais para tentar ganhar musculatura para negociar o Brexit, mas acabou perdendo a maioria do Parlamento.

O curioso é que o forte das campanhas se dá em duas frentes totalmente opostas: na modernidade da propaganda direcionada pelas redes sociais por meio de algoritmos e do tradicional correio britânico, um dos orgulhos do país. 

Quem mora no Reino Unido não é obrigado a votar, mas corre o risco de pagar multa se não se inscrever em sua região como apto para tal. Os eleitores recebem nas portas vazadas para postagens de suas casas todo tipo de material eleitoral. São papéis e mais papéis, que na maior parte dos casos vai parar no lixo.

Para além da questão ecológica, a maior preocupação reside na outra ponta da campanha, a mais moderna. Estão ainda muito latentes as denúncias contra a Cambridge Analytica, empresa de análise de dados suspeita de manipular informações e que trabalhou para grupos pró-Brexit na campanha do plebiscito de 2016. 

Brittany Kaiser, ex-diretora de desenvolvimento de negócios da empresa, disse que a corrente Leave.EU usou conjuntos de dados criados pela Cambridge Analytica para direcionar eleitores com mensagens políticas online para potencialmente influenciar a opinião pública. A empresa esteve no centro de um escândalo mundial sobre a captura ilegal de informações digitais de milhões de usuários do Facebook sem o consentimento deles e como esses dados foram potencialmente usados para publicidade política direcionada.

Há sempre um temor de que isso possa acontecer novamente em terras britânicas e, recentemente, os sites e computadores do Partido Trabalhista, da oposição ao governo, foram hackeados, inspirando ainda mais cuidado sobre o caso.

Do lado do Partido Conservador, a sofisticação da campanha eletrônica tem um mentor, Dominic Cummings. Figura de bastidores pouco conhecida dos britânicos até pouco tempo atrás, o conselheiro especial do primeiro-ministro Boris Johnson, é tido como "a ideia" por trás do Brexit. 

Até acesso irrestrito ao Palácio de Westminster ele conquistou, apesar do enfrentamento, em vão, de alguns deputados. Se atribui ao todo poderoso conselheiro também a estratégia de suspender o Parlamento por cinco semanas no meio do semestre, assim como a de tirar líderes do Partido Conservador de seus cargos e a própria antecipação das eleições.

Até o slogan da campanha do premiê "Get Brexit done" (Vamos entregar o Brexit, em tradução livre) tem sido atribuída ao seu guru. 

Para o professor de política europeia e relações exteriores do King's College, Anand Menon, a frase tem um toque poderoso e é fácil de ser memorizada. "Mais do que isso, cumpre dois propósitos eleitorais óbvios: evita discussões políticas sobre o que 'entregar o Brexit' pode realmente envolver. E, mais praticamente, fornece uma frase que pode ser memorizada e repetida ad nauseum em anúncios online", analisou.

Essa segmentação de eleitores do Reino Unido nas mídias sociais antes da votação do Brexit faz parte de um modelo que passou a ser usado amplamente por grupos políticos em todo o mundo ocidental. As gigantes de tecnologia prometem ser mais duras com esses acessos agora.

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