REUTERS/Darren Staples
REUTERS/Darren Staples

Reino Unido terá ‘guinada centrista’

Premiê Theresa May promete que o Estado britânico atuará mais para garantir que negociações do Brexit não prejudiquem trabalhadores

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2016 | 05h00

Pressionada pelas alas ultraconservadora e eurocética, de um lado, e pela ala moderada do Partido Conservador, de outro, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, anunciou ontem que adotará um caminho “centrista” nas negociações para a retirada britânica da União Europeia (UE). 

A premiê deixou de lado a lógica liberal que norteava o Partido Conservador (Tories) e anunciou que o Estado será mais intervencionista para garantir que o “Brexit” seja o menos sentido possível pelos “trabalhadores comuns”.

As declarações foram feitas em discurso de encerramento do congresso dos Tories, em Birmingham. Comparada à ultraliberal Margaret Thatcher quando chegou ao poder, Theresa May fez questão de marcar posição, surfando na onda política de mais proteção e menos liberalismo que vem reorientando os partidos conservadores na Europa. Segundo ela, para compensar os efeitos adversos do Brexit seu governo deverá trabalhar por “uma grande meritocracia que funcione para todos”. 

Segundo a premiê, o governo conservador trabalhará entre a “esquerda socialista e a direita libertária”, de forma a encarnar valores de solidariedade e de “recusa às discriminações”. 

Essa postura vem saindo das urnas da Europa, onde movimentos de extrema direita ou populistas têm tido desempenho acima da média, em parte movidos por votos de eleitores que se consideram à margem da globalização. A estratégia é reconquistar o eleitorado do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) e também parte dos 37% de eleitores do Partido Trabalhista (Labour) que votaram pelo Brexit. 

May definiu o divórcio entre Londres e Bruxelas como a oportunidade de concretizar “uma revolução tranquila”, que vai redefinir o papel do Reino Unido do mundo. “Se você é um cidadão do mundo, você é um cidadão de lugar nenhum. Você não compreende o significado da palavra cidadão”, disparou. 

Incorporando parte da retórica da extrema direita britânica, a premiê afirmou que o voto a favor do Brexit significou um protesto de pessoas que se sentem excluídas e que recusam um mundo voltado “a alguns privilegiados e não a eles”. Foi então que May anunciou que o Estado britânico será mais intervencionista. “Nós acreditamos nos serviços públicos e acreditamos que o governo pode fazer boas coisas”, afirmou. “Governar é agir.”

Por trás do discurso de Theresa May está a guinada do Partido Conservador em direção a uma direita ainda mais conservadora e nacionalista, que defende a soberania e o retorno das fronteiras. Essa plataforma é a mesma que impulsiona partidos populistas como a Frente Nacional (FN) na França, liderada por Marine Le Pen, favorita das pesquisas para as eleições presidenciais de 2017.

A premiê ressaltou ainda que a partir de março, quando se iniciar a negociação do divórcio entre Reino Unido e UE, apresentará a Bruxelas uma proposta de permanência no mercado comum – o Espaço Econômico Europeu (EEE) –, mas sem a livre circulação de pessoas. Essa possibilidade já foi descartada pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e pelo presidente da França, François Hollande.

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