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Reino Unido vai navegar em mar aberto

Pouco a pouco, Boris Johnson vai desatar as amarras que uniram o Reino Unido à aventura europeia e navegar em mar aberto, como gostam os britânicos

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 06h00

Desta vez, Londres está realmente se despedindo da União Europeia. E, no final, a vitória é de Boris Johnson. Quando ele sucedeu Theresa May, muitos duvidaram de suas chances. May, que é uma conservadora como Johnson, lutou por três anos e com coragem. Mas fracassou. Johnson jamais se abalou. Ele ofereceu aos cidadãos uma vontade férrea, suavizada pelo bom humor inalterável, pelos trocadilhos e piadas de “humor britânico”.

Foi assim que os conservadores venceram confortavelmente as eleições legislativas e terão uma maioria que somente Margaret Thatcher alcançou, nos anos 80. Como resultado, o Parlamento oferecerá a Johnson a garantia para dar o próximo passo: acionar o Brexit

Pouco a pouco, ele vai desatar as amarras que uniram o Reino Unido à aventura europeia e navegar em mar aberto, como gostam os britânicos. Triunfo de Johnson, portanto. A ver como será o amanhã, pois o hoje é de júbilo.

Os europeus parecem receber essa vitória do Brexit com serenidade. Então, a saída britânica da UE lhes agrada? Certamente não, mas o caso se arrastou por tanto tempo e se perdeu em tantos detalhes minuciosos, irrisórios e irritantes que os europeus agora podem suspirar de alívio.

Essas incessantes idas e vindas, de Berlim a Bruxelas, e depois de Bruxelas a Berlim, de Londres a Paris, de Paris a Roma, acabaram por irritá-los. Já não conseguiam ver se desfazer à noite tudo o que com tanto trabalho haviam feito durante o dia. 

Ligações perigosas

E a Europa já está pensando no que vem pela frente, como disse a francesa Amélie de Montchalin, secretária de Estado dos Assuntos Europeus. “O que esperávamos era esclarecimento. E parece que é isso que teremos. A coisa mais importante do Brexit não é o modo como vamos nos separar, mas o que vamos construir a seguir. Agora, é necessário estabelecer o relacionamento mais forte possível”.

Queremos encontrar novas maneiras de trabalhar juntos. Afinal, podemos nos amar sem compartilhar o mesmo apartamento. E o novo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, não disse nada diferente disso. “Estamos nos encaminhando para a próxima etapa, em estreita cooperação.”

Johnson está eufórico. E os europeus de Bruxelas, um pouco tristes, mas com um desejo sincero de preservar relações amistosas com Londres. Os mais aborrecidos hoje são os trabalhistas. Em geral, estão em pé de igualdade com os conservadores. Mas, neste ano, o Partido Trabalhista levou um tapa na cara, perdeu 42 cadeiras e elegeu apenas 203 deputados.

Os responsáveis? Certamente o líder trabalhista, Jeremy Corbyn. Ele não tem carisma. Triste e desanimado, não conta com a jovialidade de Johnson. E colecionou erros. Sempre rejeitou expressar claramente seus sentimentos sobre o Brexit. 

Quando questionado, procurava uma evasiva. Por fim, era suspeito de animosidade contra os judeus e de não ter lutado energicamente contra o antissemitismo em seu partido, e isso não foi perdoado. Corbyn vai sobreviver a essa debandada em plena luz do dia? Ele próprio parece estar se preparando para a retirada. Disse que, no futuro, não participará de outra campanha eleitoral.

E ainda há outra figura política de grande influência que não esconde suas preferências: Donald Trump. “Navegar em mar aberto” significa se aproximar dos Estados Unidos. E, então, o triunfo do Brexit será um duro golpe nesta União Europeia que Trump odeia, pois odeia todas as formas de multilateralismo.

Podemos, portanto, presumir que o homem da Casa Branca fará de tudo para ajudar seu querido Johnson, até o dia em que virá a odiá-lo, para depois amá-lo novamente. As ligações com Trump são sempre muito perigosas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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