Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Reintegrar paramilitares é desafio para consolidar paz

Ex-combatentes voltam à escola, onde têm aulas junto com guerrilheiros

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2008 | 00h00

Sentado num banco escolar, de camisa e calça social, Andrés admite que estranhou quando, há cinco anos, teve de entregar o fuzil que mantinha atravessado sobre o peito até enquanto dormia. ''Desarmado eu me sentia nu'', conta ao Estado, numa entrevista num centro de ensino em Medellín que reúne ex-combatentes e vítimas do conflito colombiano. ''Pensava que poderia ser atacado a qualquer momento por guerrilheiros e policiais ou sofrer represálias de inimigos que fiz nos anos em que estive mergulhado nessa guerra.''Andrés tem 30 anos e faz parte do primeiro grupo de paramilitares de ultradireita que concordou em abandonar as armas na Colômbia, em 2003. Ainda tem medo de ter seu nome completo publicado, mas em meio a intensas dificuldades, está conseguindo levar a vida adiante. ''Agora trabalho como técnico em eletrônica e estou estudando inglês'', diz. ''Meu salário é troco perto do dinheiro que passava pelas minhas mãos quando eu era paramilitar, mas a vida é menos arriscada. As pessoas não têm mais medo de mim como antes e fico feliz em ver que pouco a pouco estão me aceitando até em meu antigo bairro.''A desmobilização de paramilitares foi crucial para a redução dos índices de violência de Medellín e toda a Colômbia. Criados no final da década de 80 como cooperativas de segurança para combater as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), esses grupos acabaram adotando as mesmas práticas criminosas que hoje alimentam o repúdio à guerrilha esquerdista: seqüestros, massacres e tráfico de drogas.O programa de desmobilização e reinserção foi lançado pelo governo colombiano em 2002 e desde então até 30 mil ''paras'' entregaram seus fuzis. Só em Medellín foram mais de 4 mil. As condições são simples. Os desmobilizados comprometem-se a não voltar a delinqüir. Os líderes são julgados e condenados a, no máximo, 8 anos - pena que grupos de defesa dos direitos humanos consideram muito generosas para alguns dos ''paras'' responsáveis pela morte de centenas de colombianos.Os soldados rasos como Andrés são encaminhados para cursos profissionalizantes, completam o ensino básico e o médio e fazem visitas periódicas a psicólogos. Muitas vezes assistem às aulas lado a lado com ex-guerrilheiros e vítimas do conflito, como na escola visitada pelo Estado em Medellín. Se forem assíduos, recebem por mês cerca de US$ 200, quase um salário mínimo.A história de cada um dos desmobilizados é uma síntese do que foi a trajetória da Colômbia nas últimas décadas: um dos lugares mais problemáticos do continente, mas, sem dúvida, também um dos poucos que estão conseguindo traçar planos consistentes que apontam para as soluções. É um país com projetos.A idéia do programa é reintegrar os ex-paras à sociedade, um processo difícil e doloroso para a sociedade colombiana, mas necessário para superar a paralisia a qual ela foi condenada pelo conflito. ''Um dos desafios é acabar com a estigmatização desses ex-combatentes'', explica Jorge Gavíria, coordenador do Programa de Paz e Reconciliação de Medellín. ''Eles começaram a fazer obras e participar de projetos nas comunidades. Com o tempo estamos conseguindo passar do medo à desconfiança e, logo, apenas ao ressentimento - passos essenciais para a reconciliação.''O mecânico Hernández Darío, ex-paramilitar, conta que seus colegas têm dificuldade de conseguir emprego porque muitos empresários evitam contratar ex-combatentes. Também não foram todos os ex-paras que se entusiasmaram logo de cara com a idéia de estudar e trabalhar duro para ganhar pouco. ''Alguns dos meus amigos achavam que não valia a pena, mas se animaram mais quando se deram conta que com essa estratégia eu estava conseguindo reconstruir minha vida e até fazer planos para o futuro'', diz Darío, de 30 anos, que após se desmobilizar conseguiu convencer a mulher e filhos a voltarem de Bogotá para viver com ele.Outro problema é que dos 30 mil desmobilizados, cerca de 4 mil voltaram a delinqüir. De acordo com algumas denúncias, parte deles se incorporou a novas organizações formadas por paramilitares, como a Águias Negras, que atuaria em cinco departamentos colombianos. ''Mesmo que alguns desmobilizados se percam pelo caminho, o fato de 26 mil estarem conseguindo se reinserir na sociedade já é um passo importante e essencial para construirmos essa nova Colômbia'', diz Gavíria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.