Beatriz Bulla/Estadão
Tina McMahon votou em Trump em 2016, mas agora acha que presidente é incapaz de unir o país Beatriz Bulla/Estadão

Rejeição de mulheres a Trump dá impulso a democratas no Arizona

Eleitorado feminino nos subúrbios de Phoenix, no Arizona, ajudam a mudar perfil de um Estado que já foi reduto republicano

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 04h00

PHOENIX, EUA - Tina McMahon foi criada em casa de republicanos. Em 2016, votou em Donald Trump. Agora, ela acredita que o presidente seja incapaz de unir o país. A poucos passos do restaurante onde ela trabalha, Karen Shepherd diz que geralmente vota em republicanos, mas não desta vez. “O presidente é um homem sem integridade”, afirma. A aversão das mulheres a Trump tem acelerado a virada democrata que gradualmente vinha acontecendo no Arizona graças a mudanças demográficas.

Com exceção de 1996, quando Bill Clinton foi reeleito, a última vez que o Arizona votou em um democrata foi em 1948. Em 2016, porém, Trump ganhou por apenas 91 mil votos de Hillary Clinton. O alerta foi ligado em 2018, quando os democratas elegeram um senador e o Arizona passou a integrar a lista dos Estados-chave, onde o voto está em disputa na corrida presidencial.

Os subúrbios de Phoenix têm feito o Estado conservador mudar de perfil. Com mais latinos, jovens e eleitores que migraram da Califórnia, o Arizona entrou na mira dos democratas. O discurso anti-imigração de Trump, a obsessão pela construção de um muro na fronteira com o México, o fracasso na resposta à pandemia e a polarização política aceleraram um processo que já estava em curso. A covid matou mais de 5,7 mil no Estado, que está entre os cinco do país com a taxa de mortes mais alta – 78,9 por 100 mil habitantes. “A covid foi muito mal gerida de cima para baixo”, afirmou Rebecca Martinez, de 42 anos.

Tina tem 31 anos e pouco interesse em política. Karen tem 69 anos e sempre votou. As duas nasceram, cresceram e trabalham no condado de Maricopa, onde fica Phoenix. Questionadas sobre o que mudou na orientação política do Arizona, as duas dão a mesma resposta: as pessoas não gostam de Trump. Segundo pesquisas, 55% das mulheres do Estado votam em Biden e 37%, em Trump. Entre os homens, o presidente tem 2 pontos de vantagem. Segundo sondagem Siena College-The New York Times, Biden está 8 pontos à frente de Trump no Arizona. 

Trump visitaria o Estado na semana passada, mas a covid o deixou preso em Washington. Coube ao vice Mike Pence fazer um comício nos subúrbios de Phoenix, na quinta-feira, mesmo dia em que Biden e Kamala Harris visitaram a outra ponta da cidade. 

No Arizona, os jovens filhos de mexicanos favorecem os democratas. Max Morales, de 18 anos, conta que os pais cruzaram a fronteira com seu irmão mais velho, que na época tinha 2 anos. “Minha mãe não gosta de Trump pelo que ele fala sobre os latinos. A maioria só está aqui para tentar uma vida melhor, não são criminosos”, afirma. Ele não tem idade para votar este ano, mas votaria em Biden, por uma nova política de imigração, pelo combate à pandemia e pelas mudanças climáticas. “Nossa população está sendo afetada por tudo isso”, diz. 

O calor de quase 40 graus é parte do noticiário local. Bombeiros do Arizona vêm ajudando a apagar o fogo nas florestas do Estado vizinho da Califórnia. No dia 29, o sol forte não impediu que uma pequena fila se formasse na porta do comitê republicano de Phoenix para acompanhar o primeiro debate. 

Veronica Hassenger, de 51 anos, ensaiou colocar a máscara no rosto na entrada. “É obrigatório?”, ela perguntou a um dos organizadores que checava a temperatura dos presentes. Ao ouvir que não, arrancou a máscara do rosto. Além dos jornalistas, apenas 1 dos 27 presentes usava máscara na pequena sala fechada. “Biden não está muito saudável”, afirmou Veronica. 

Segundo ela, o que tem mudado o Arizona são os californianos que “trazem a política junto com eles”. O êxodo da Califórnia é impulsionado por pessoas que buscam impostos mais baixos e melhor qualidade de vida, além da abertura de escritórios de empresas de tecnologia. 

Entre 2010 e 2018, quase 500 mil migraram da Califórnia para o Arizona. Natasha Castellanos, de 31 anos, chegou a Phoenix há pouco tempo. “Dá para sentir que este é um Estado republicano, mas há os ‘transplantados’, como eu”, diz, enquanto pega sua bicicleta na saída de um bar “pet friendly”. “Estou ansiosa para a eleição, porque, independentemente de quem ganhar, será uma loucura.” Tina concorda: “Mal posso esperar pelo fim, todo mundo está ficando louco.”

Biden tenta tirar de Trump Estados do Cinturão do Sol e refazer mapa eleitoral

Trump foi eleito em 2016 graças ao apoio de Estados do Cinturão da Ferrugem, redesenhando o colégio eleitoral, onde a eleição americana é definida. Desiludidos, eleitores que votaram em Barack Obama duas vezes apostaram no outsider republicano. Para ganhar em 2020, Trump e Joe Biden precisam desses Estados do Meio-Oeste.

No entanto, a perda de apoio nacional do presidente tem afetado o Partido Republicano em lugares que antes eram cativos do conservadorismo, como o Cinturão do Sol, que se tornou um campo de batalha improvável da eleição americana.

Estados que garantiram aos republicanos uma coalizão conservadora no Sul dos EUA têm registrado mudanças demográficas, com o crescimento de subúrbios menos brancos e padrões de migração que favorecem democratas. É o caso do Arizona, do Texas e da Geórgia.

O novo perfil dos moradores de Estados republicanos do Sul é uma mudança que há alguns anos vem sendo acompanhada de perto por analistas e acontece aos poucos, com a diminuição da margem de vantagem dos republicanos na história recente.

A eleição de 2020 pode acelerar esse fenômeno e obrigar republicanos a brigarem por Estados que já foram uma trincheira do partido. Os subúrbios rejeitam a retórica anti-imigração de Trump e o afastamento do presidente da pauta antirracista. 

A pandemia atingiu em cheio parte dos Estados do Sul, comandados por governadores republicanos que foram resistentes às medidas restritivas ligadas ao coronavírus no início da crise. Com apoio de jovens e mulheres, cansados da polarização promovida pelo presidente, os democratas apostam em um novo desenho do mapa eleitoral com apoio de parte do Cinturão do Sol. 

 

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Na fronteira, clima hostil é novidade

Crise em Nogales, que separa EUA e México, reverbera em todo o Estado do Arizona

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 04h30

NOGALES, EUA - Mal parece que Nogales fica nos EUA. Com o espanhol como idioma, casas baixas protegidas por grades de ferro e notícias sobre o México nas rádios locais, a pequena cidade da fronteira guarda mais semelhanças com o país vizinho do que com os subúrbios brancos americanos. 

No sul do Arizona, a região é conhecida como “Ambas Nogales”, em referência à simbiose com a cidade de mesmo nome no lado mexicano. Mas, nos últimos anos, com a retórica anti-imigração de Trump e o reforço na fronteira, a vida mudou. “Éramos cidades gêmeas. Mas estamos nos tornando distantes. Esse presidente divide tudo, divide famílias”, afirma Antonio Corrales, que viveu seus 48 anos na Nogales americana. “Aqui há pessoas brancas que discriminam mexicanos. Eles não gostam dos latinos. Por que eles vêm viver na fronteira se não gostam de mexicanos?”

As cidades são separadas por grades, arames e guardas de fronteira. A barreira é uma das que já existiam antes de Trump defender a construção de um muro com o México. O que era uma cerca pouco fiscalizada foi mudando nos últimos 25 anos. Em 2019, arame farpado foi instalado do lado americano, que tem vigilância reforçada. “As pessoas não se importavam com a cerca antes”, diz Corrales.

A discriminação e a piora na relação entre os dois lados é recorrente. A economia das duas cidades é interdependente, mas desde março viagens não essenciais estão vetadas para evitar a propagação do vírus. O centro de Nogales está abandonado. À tarde, a rua comercial fica vazia – apenas uma loja de uniformes de policiais está aberta.

A ligação entre os dois lados é tanta que há estudantes com dupla cidadania que vivem no lado mexicano, mas estudam nos EUA. Em média, 9 mil pessoas cruzavam a pé de um lado ao outro todos os dias. O número de carros é semelhante. “Leite, ovo, frango, tudo eu comprava nos EUA”, conta María de Los Angeles, no lado do México, através de uma fresta da grade. Ela conversava com a irmã, que vive no lado americano. Antes da pandemia, ela cruzava a fronteira duas vezes por semana, mas reclama da dificuldade nos últimos anos. “Estão pegando pesado com os imigrantes”, diz. 

Dos EUA para o México, a passagem é rápida, mas o caminho oposto tem ficado cada vez mais difícil. “Há mais discriminação”, afirma Corrales. Em Nogales, Trump nem faz campanha. Hillary Clinton venceu na cidade com mais de 80% dos votos. 

Da eleição presidencial pouco se ouve. As placas nos canteiros pedem voto para candidatos locais. Mas a crise na fronteira reverbera em todo o Estado. “Aqui no Arizona estamos perto demais da fronteira. Sentimos o impacto de perto”, afirma Rebecca Martinez, de 42 anos. Ela diz que já votou em candidatos dos dois partidos, mas agora está fechada com Biden. 

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