Relação Brasil-EUA não será abalada, diz Powell

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, afirmou hoje que as relações bilaterais entre os Estados Unidos e o Brasil "estão fortes" e não serão afetadas pela diferença de opinião entre os dois países sobre o trabalho que o diplomata brasileiro licenciado José Maurício Bustani está realizando à frente da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq), uma agência das Nações Unidas com sede em Genebra."Esse não é um problema bilateral e nossas preocupaçõescom a administração dessa organização não causam nenhum problema nas nossas relações com o Brasil", afirmou Powell durante entrevista que concedeu nesta terça-feira à tarde aoscorrespondentes do Estado e de quatro jornais da América Latina - Clarín, de Buenos Aires, El Universal, da Cidade do México, El Tiempo, de Bogotá, e La Prensa, da Cidade do Panamá - às vésperas da visita que o presidente George W. Bush inicia depois de amanhã ao México, Peru e El Salvador.Powell disse que seu país está satisfeito com o apoio querecebeu do Brasil na campanha contra o terrorismo. Numadeclaração que certamente será lida com ironia, especialmente à luz da recente decisão norte-americana de restringir as importações de aço, Powell afirmou que "o Brasil está tão comprometido com o livre comércio quanto os Estados Unidos".Powell recebeu os jornalistas na sala de reuniões de seugabinete, no sétimo andar do Departamento de Estado, em torno de uma mesa que foi usada durante a cúpula dos líderes do Grupo dos Sete realizada em Williamsburg, em 1983. O chefe da diplomacia norte-americana disse que a visita que Bush à região - a segunda ao México, e a primeira às Américas do Sul e Central - "mostra o interesse do presidente e de sua administração" pelo hemisfério.Ele confirmou que Washington está repensando sua política para a Colômbia, mas descartou a possibilidade de envolvimento de tropas norte-americanas no país. Segundo o secretário, o governo dos EUA concluiu que a solução, em última análise, para o problema das drogas nos Estados Unidos está em combater ademanda no próprio país.Powell destacou, finalmente, que os critérios da boaadministração guiarão cada vez mais as relações dos EUA com outros países e disse que, com o fim da Guerra Fria, Washington já não tem motivos para ignorar quando seus amigos num país seguem práticas antidemocráticas ou antiéticas que não aprova.Abaixo, trechos da entrevista.Pergunta - Como o senhor avalia as relações entre o Brasil e osEstados Unidos nas questões mais importantes do momento, comosegurança e comércio?Powell - Acho que as relações entre o Brasil e os Estados Unidosestão muito boas. O Brasil deu um forte apoio à nossa campanhacontra o terrorismo e está tão comprometido com o livre comércioquanto os Estados Unidos. Conversei com (o chanceler Celso)Lafer há dois dias, como falo com freqüência com líderes daregião. Sempre conto com que o ministro Lafer me chamará setiver um problema a tratar e eu faço o mesmo com ele. Nossasrelações são bastante fortes. Estamos, portanto, satisfeitos como apoio que o Brasil nos deu na Organização dos EstadosAmericanos (ao invocar o Tratado do Rio de defesa coletiva,depois dos ataques de 11 de setembro), com o apoio que temosrecebido na campanha contra o terrorismo e o compromisso do Paíscom a liberalização do comércio.Pergunta - O ministro Celso Lafer conversou com o senhor sobre aposição do governo dos EUA em favor da saída de um brasileiro,José Maurício Bustani, da direção da Organização da ONU para aProscrição de Armas Químicas. Qual é a objeção dos EUA aBustani? Essa questão afetará as relações bilaterais com oBrasil?Powell - Há um problema com esse órgão das Nações Unidas quevocê mencionou e estamos tratando dele por meio dos canais daONU. A pessoa que dirige a organização é o sr. Bustani e tenhoestado em conversação com o ministro Lafer a respeito. Mas essenão é um problema bilateral entre os EUA e o Brasil. O sr.Bustani dirige uma organização na ONU e a questão está dentro daONU. Nossas preocupações com a administração dessa organizaçãonão causam nenhum problema nas nossas relações bilaterais. O sr.Lafer sabe qual é a nossa posição. Nós sabemos qual é a posiçãodele. E não há nenhuma irritação nas relações entre o Brasil eos EUA por causa dessa questão.Pergunta - Até agora, a premissa da política dos EUA para aColômbia era que, no final, haveria uma solução política para oconflito. Com os guerrilheiros reclassificados agora comoterroristas, mudou também o objetivo do envolvimento americano?Os EUA buscam, agora, uma solução militar para o conflito?Powell - A política dos EUA é de apoiar os governantes eleitosda Colômbia. Apoiamos o presidente Pastrana e apoiaremos seusucessor depois que ele for escolhido de uma maneira livre edemocrática nas próximas eleições. O presidente Pastrana mereceuma grande crédito por ter tentado encontrar uma soluçãopolítica negociada para acabar com a violência e o sofrimentodos colombianos. Ele tentou isso com a criação dos santuários(para os guerrilheiros). Ele trabalhou duro e nós o apoiamos.Nosso apoio focalizou principalmente os esforços contra osnarcotráfico. O nosso Congresso deixou claro que esse deveriaser nosso objetivo na utilização dos recursos aprovados tanto noPlano Colômbia como na Iniciativa para a Região Andina. Quando,algumas semanas atrás, e depois de ter tentado e tentadonegociar, Pastrana disse basta e decidiu que essas pessoas(membros das Farc) eram fundamentalmente terroristas, como nósjá os havíamos designado, expressamos nosso apoio a ele. Agoraque está ainda mais claro que há uma questão de terrorismo a serenfrentada, além da questão do narcotráfico, estamos buscandomaneiras de apoiar a Colômbia. Neste momento, estamos noprocesso de considerar quais as mudanças que precisamos fazernas leis de forma a dar um apoio mais amplo ao governo daColômbia. Notificaremos o Congresso sobre essas mudanças nospróximos dias. O Congresso tem dado amplo apoio. Ao mesmo tempo,sempre queremos ver uma resolução pacífica, uma soluçãonegociada. Mas as partes precisam estar dispostas a negociar apaz. Não vemos necessidade para o envolvimento de tropasnorte-americanas na luta contra as Farc ou seja quem for. Aquestão é ajudar o governo legítimo da Colômbia a se defendercontra o terrorismo e o narcotráfico.Pergunta - As estimativas da CIA sugerem que a erradicação doplantio de coca, que era um dos objetivos do Plano Colômbia, nãodeu resultado.Powell - Há um debate legítimo sobre a eficácia do esforço deerradicação. Há diferentes maneiras de medir. O que eu diria éque o efeito pleno do Plano Colômbia ainda não foi sentido, noque diz respeito aos esforços de erradicação. Vamos eliminar oplantio de coca? Não. Nós aprendemos uma lição penosa nessesmuitos anos da campanha antidroga: no final, a maneira deresolver isso não está em ir atrás das fontes fornecedoras ou(confiar) na interdição. A solução, em última análise, não estána América Latina, mas nos EUA. A solução está em fazermos algoem relação à demanda de drogas por pessoas viciadas que estãonas esquinas de nossas ruas e também nos escritórios dasempresas - os usuários de colarinho branco das drogas ilegais.Se não pararmos essa criação de demanda, jamais conseguiremosganhar a guerra contras as drogas. Assim, temos de lutar contraas drogas em cada fase: tratamento (dos viciados), educação dosnossos jovens para que não façam isso, interdição e a repressãoà oferta.Pergunta - O que os EUA esperam alcançar com o indiciamentojudicial de membros da Farc como narcotraficantes?Powell - Deixaria para o Departamento de Justiça explicar osdetalhes dos indiciamentos (anunciados segunda-feira). Mas nãome choca que, nessa campanha contra o terrorismo e contra onarcotráfico, indivíduos das Farc, que é uma organizaçãoterrorista, sejam indiciados por suas atividades. E isso foi oque o secretário da Justiça John Aschcroft fez.Pergunta - Muitos argentinos acham que os Estados Unidos traírama Argentina. O sentimento das pessoas é que o país foi um aliadodos EUA, implementou muitas reformas e Washington deveria ajudaros argentinos no momento de crise. Como o senhor responde aisso?Powell - A Argentina não tem melhor amigo do que os EstadosUnidos. Temos trabalhado com nossos amigos na Argentina paraapontar os problemas econômicos e financeiros que vemos.Encorajamos o governo da Argentina a agir agressivamente paralidar com os problemas estruturais, financeiros e orçamentários.Estamos esperando para ouvir os resultados da visita da equipedo Fundo Monetário Internacional (FMI) que acaba de retornar aWashington e esperamos ter um papel importante na respostainternacional (à crise). Mas o fato de que estamos defendendoreformas e esperando para ver um sólido pacote de reformas nãodeve ser visto com um sinal de abandono (da Argentina), mas umsinal de apoio e de disposição de ajudar. Uma vez que virmos umplano que conserte os problemas e mereça a assistênciafinanceira da comunidade internacional - e esperamos que issoesteja emergindo -, daremos nosso apoio. O presidente Duhaldetem um trabalho muito difícil e o que estamos tentando fazer éapoiá-lo. Sua filosofia ou sua tendência política não me causanenhum problema.Pergunta - A preocupação é que, se o atual plano econômicoproposto pelo governo fracassar, a democracia na Argentinaestaria em risco e isso poderia ter efeitos negativos em outrospaíses da região.Powell - Houve dificuldades, mas creio que a democraciaargentina é ainda vibrante. As pessoas trabalharam duro paradeixar claro que o processo constitucional precisa ser seguido.Mas é um problema que cabe ao povo da Argentina resolver. Aspessoas precisam ter disposição para fazer os sacrifícios,enfrentar as reformas estruturais necessárias. Você disse que aArgentina fez reformas. Mas isso não aconteceu. É ainda umtrabalho em andamento. E o presidente Duhalde tem a difíciltarefa de convencer a sociedade. Há escolhas difíceis a serfeitas. Democracia política e democracia econômica caminhamjuntas nos dias de hoje. Uma reforça a outra. É encorajador quea crise argentina não tenha produzido contágio. Isso podeacontecer, mas (o problema) até agora está contido.Pergunta - O novo subsecretário de Estado para a América Latina,Otto Reich, destacou a importância de combater a corrupção naregião e disse que os Estados Unidos revogarão os vistos deentrada de latino-americanos corruptos. Muitas das pessoassuspeitas ou indiciadas por crimes de corrupção, como osex-presidentes Carlos Salinas, do México, Carlos Menem, daArgentina, e o ex-chefe dos serviços de inteligência do PeruVladimiro Montesinos, foram em algum momento muito amigos dosEUA. Washington revogará o visto de entrada de Menem, porexemplo?Powell - Eu não quero entrar em nenhum caso individual, pois nãotenho todos os fatos diante de mim. Mas posso dizer que em todasas nossas discussões com as nações ao redor do mundo -desenvolvidas e em desenvolvimento -, dizemos cada vez mais quea assistência que elas esperam dos EUA será em função (daresposta que derem a várias as perguntas): você tem um governodemocrático, quer dizer, com líderes e um Legislativo eleitospelo povo? Você tem um sistema baseado na aplicação de leis?Você tem um lugar onde os empresários podem buscar justiçaquando algo dá errado? Você tem transparência em seus sistemaspolítico, econômico e financeiro, de modo que as pessoas possamver como as decisões são tomadas e para onde vai o dinheiropúblico? Você respeita a propriedade privada? Você acredita emliberdade econômica? São questões simples. O que tenho dito atodos os muitos visitantes que recebo e que estão interessadosem comércio e ajuda dos EUA é que, cada vez mais, vamos medircada país por esses parâmetros. E para mostrar que isso não éapenas retórica, veja novamente o discurso que o presidente Bushpronunciou na quinta-feira, no qual ele anunciou um novoprograma de US$ 5 bilhões, além dos nossos outros programa deassistência. O presidente disse que o acesso a esses recursosserá para países que têm boa administração, o que significaresponder às perguntas que mencionei. Quando as pessoas cometemcrimes, elas precisam estar sujeitas à lei. Esses são os padrõessob os quais o mundo civilizado tem de operar. Nos dias daguerra fria, podíamos olhar para o outro lado, porque havia umacoisa ou outra acontecendo com os russos. Crescentemente, essascoisas não podem ser ignoradas. Esses mesmos princípios estão nadeclaração que o líderes do hemisfério fizeram na Cúpula dasAméricas, em Quebec. Quem não seguir essas normas não ficará noclube.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.