Departamento de Estado dos EUA
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‘Relação com Brasil continua forte’, diz diplomata dos EUA

Uma das porta-vozes do Departamento de Estado diz que Biden e Bolsonaro podem discordar, mas que países manterão parceria

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 21h07

WASHINGTON - O novo governo dos Estados Unidos, comandado pelo democrata Joe Biden desde 20 de janeiro, continua a ver o Brasil como um aliado, apesar de divergências com o presidente Jair Bolsonaro. Esse é o recado da porta-voz em português do Departamento de Estado americano, Kristina Rosales, em entrevista ao Estadão. "Não é simplesmente porque os dois líderes têm forma diferente de pensar que as coisas estejam mudando para pior", afirmou a diplomata.

"Vai continuar havendo uma relação bilateral bem forte entre os dois maiores países da região. As prioridades têm mudado, mas não significa que não há como trabalhar de maneira conjunta nesses tópicos", disse Kristina, em entrevista na tarde desta segunda-feira. Horas antes, em um briefing na Casa Branca, a porta-voz do presidente, Jen Psaki, também destacou a parceria entre os dois países. "Há uma parceria econômica significativa", disse Psaki.

A diplomata Rosales repete a afirmação de Psaki de que os EUA têm séculos de parceria com o Brasil e afirma que a cooperação na área econômica vai "preparar o terreno para a discussão de outros temas que talvez sejam mais sensíveis", como a questão climática. "Vamos falar desses temas, mas sabendo que a relação com o Brasil tem uma história bem profunda e não é simplesmente porque há uma visão diferente agora que os países não vão continuar a ser aliados", afirma.

Durante os últimos dois anos, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez declarações públicas de admiração ao republicano Donald Trump e disse apoiar a reeleição do ex-presidente. O brasileiro foi o último líder do G-20 a parabenizar Biden pela vitória na eleição. Até agora, Bolsonaro e Biden não conversaram pelo telefone -- algo que o presidente americano já fez com aliados próximos, como os presidentes do México e Canadá, e também adversários, como Vladimir Putin. Bolsonaro optou por uma carta ao presidente dos EUA no qual falou sobre o compromisso do Brasil com a preservação ambiental.

Biden faz da preocupação climática um eixo de sua política externa. Durante a campanha eleitoral, o democrata disse que iria "reunir o mundo" para oferecer um fundo de US$ 20 bilhões para proteger a Amazônia e afirmou que o Brasil sofreria consequências econômicas caso não se comprometesse com a preservação da floresta. No primeiro ano do governo Bolsonaro, as manchetes de jornais internacionais destacaram o aumento das queimadas na Amazônia, o afrouxamento da regulação ambiental no Brasil e as falas do presidente e do chanceler, Ernesto Araújo, com críticas ao que classificavam como um "alarmismo climático". Na semana passada, o governo Biden recebeu um relatório de ativistas e integrantes de ONGs internacionais, além de acadêmicos, com críticas ao governo Bolsonaro, inclusive na parte ambiental.

A pauta do partido democrata contrasta com a visão defendida por Bolsonaro. Mas o perfil do presidente americano, segundo analistas e assessores, valoriza a busca por cooperação no âmbito internacional. No segundo mandato de Obama, Biden ficou encarregado da relação com a América Latina, como vice-presidente. Desde então, é visto como um político com conhecimento e interesse sobre o Brasil. As declarações desta segunda-feira mostram que os EUA pretendem manter o relacionamento com o Brasil, a despeito das diferenças entre os líderes.

Há cerca de 10 dias, Biden assumiu um conjunto de medidas para colocar atenção na pauta climática no governo americano. Há menção à criação de um plano de preservação da Amazônia e outros ecossistemas, que deverá ser elaborado pelo Departamento do Tesouro e pelo Departamento de Estado. Kristina Rosales afirma que até o dia 22 de abril, quando os EUA realizarão uma cúpula sobre clima, o governo americano deve divulgar mais detalhes do plano.

"Sabemos que já há cooperação na questão ambiental há muito tempo, não só por parte do trabalho que os EUA fazem com as ONGs locais na região da Amazônia mas também com a USAID, que tem uma parceria de vários anos com o setor privado brasileiro. Assim como outros parceiros que ficam na fronteira com Peru e Colômbia", afirma a diplomata.

Segundo ela, ter o Tesouro envolvido na negociação do plano de preservação da Amazônia não implica, necessariamente, o debate sobre eventuais sanções econômicas. "O Tesouro tem a ver com equilíbrio econômico neste tema. Há a inclusão de várias instituições que tratam do tema. Não é porque o Tesouro está envolvido que quer dizer que vai haver sanção para qualquer país que seja", disse.

A reunião do próximo dia 22 é uma reedição do Fórum das Grandes Economias para Energia e Clima, lançado em 2009 no governo Obama. Nas edições passadas, os EUA convidaram Austrália, Brasil, Canadá, China, União Europeia, França, Alemanha, Itália, Indonésia, Índia, Japão, Coreia do Sul, México, Rússia, África do Sul e Reino Unido. Até agora, segundo Kristina, o encontro está em planejamento, sem convites formais aos países. 

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