‘Relação com Brasil deve superar ideologia’, diz Guaidó

‘Relação com Brasil deve superar ideologia’, diz Guaidó

Para líder opositor venezuelano, é preciso manter a pressão sobre Maduro para conseguir uma transição segura no país

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h00

Em janeiro de 2019, Juan Guaidó se declarou presidente da Venezuela e reacendeu o antichavismo, adormecido desde 2017. Um ano e nove meses depois, Nicolás Maduro continua no poder e Guaidó diz que é preciso convencer quem ainda o apoia a promover uma “transição”. Em entrevista, ele conta ao Estadão como pretende manter a pressão sobre o regime. 

Por que o senhor decidiu ficar na Venezuela após as ameaças? 

Parte do trabalho para conseguir uma transição é manter a pressão interna, a mobilização. Hoje, 90% da população rechaça Maduro porque não há água, comida, entre outras coisas na Venezuela. Outro ponto é a pressão internacional, a ditadura não pode descansar sobre aliados internacionais. O risco é mais do que evidente para todos que lutam por democracia, como mostra o relatório de Michelle Bachelet, e o regime não parou em nenhum momento com as perseguições, com a censura, o assassinato político, com a tortura. 

Esses relatórios têm impacto fora da Venezuela, mas como divulgar isso internamente, onde Maduro parece estável?

Na segunda-feira, ocorreram 127 protestos de professores. Obviamente, por parte da ditadura, a tentativa é tornar isso invisível. Atualmente, não há uma emissora que possa transmitir ao vivo, cobrir em nível nacional o que está acontecendo. Parte do objetivo da ditadura é justamente tornar invisíveis as manifestações do povo para não deixar evidente, por exemplo, a fome. Enquanto conversamos, o regime está ameaçando milhares de ativistas políticos sequestrados apenas porque denunciaram a tortura. A ditadura está mais isolada porque, entre outras coisas, Maduro não consegue nem levar água para a Venezuela, 53% dos hospitais não têm água de maneira constante, 90% dos lares também não. Sem contar que no país com as maiores reservas petrolíferas do mundo não há gasolina. Dificilmente podemos dizer que Maduro está estável, está apenas mais um dia usurpando funções em Miraflores. 

Então o que falta acontecer para que haja uma transição? 

Há uma grande maioria que desaprova Maduro, ele é denunciado por crimes contra a humanidade, por vinculação ao terrorismo e ao narcotráfico, e não consegue satisfazer necessidades básicas do povo. Analisando quem mantém o regime, as Forças Armadas, como gerar garantias aos militares? Esse é um esforço constante. Apresentamos a Lei de Garantias e Reconciliação, mas também um sistema de levantamento de sanções, garantias para todos os setores de que é possível a vida sem Maduro. Quem dessas pessoas que sustentam a ditadura hoje está disposta a abandoná-la? Isso seria catastrófico para Maduro. É preciso combinar pressão interna e internacional para chegar às garantias que levem ao fim do apoio ao ditador. 

Quando o senhor se declarou presidente, muitos disseram que havia um golpe em curso. Qual é a sua resposta a isso?

Basicamente, a Constituição. A Constituição é clara: quando não há uma eleição legítima, deve assumir (a presidência) o presidente do Parlamento, até que se celebrem eleições legítimas. O que pedimos é o respeito à Constituição, à luta pela democracia, o respeito aos direitos humanos, à vida dos venezuelanos. É impossível relativizar. Em alguns momentos, era possível admitir solidariedades automáticas ao regime por desconhecimento ou simplesmente por afinidade ideológica. Hoje, o que acontece na Venezuela não tem nada a ver com ideologia. Tem a ver com assassinato político, com tortura, com fome. Esse não é um tema ideológico. O que tentamos é a solidariedade e o respaldo a uma luta do povo venezuelano. Alguns podem confundir isso com uma luta pelo poder, mas não é. Essa é uma luta para vivermos com dignidade. Falar de golpe é desconhecimento ou falta de informação. 

Uma das críticas à oposição é a fragmentação. Henrique Capriles aceitou participar da eleição. Como unir as forças antichavistas?

Hoje, todos na Venezuela concordam que é preciso haver eleições presidenciais e parlamentares como parte da solução do conflito. Mas hoje a ditadura, por meio de ameaças, perseguição, prisão política e exílio, pretende decidir quem serão os candidatos. Um exemplo: eu não poderia ser candidato. Henrique Capriles, Marina Corina Machado, Leopoldo López, também não. E por quê? Porque existem 5,1 milhões de venezuelanos no exílio, a maioria refugiados, que não têm direito a participar do processo eleitoral porque não conseguem se inscrever para votar. O segundo ponto é o cronograma. Eles anunciam uma eleição parlamentar quando está suspensa a presidencial, que resolveria de fato o problema na Venezuela. Terceiro elemento, o árbitro. Parece óbvio, não? Em qualquer partida de futebol há um árbitro independente. Hoje, na Venezuela, isso não existe. Eles sequestraram esse poder. O Parlamento deve designar o Conselho Nacional Eleitoral, mas isso não foi permitido. O quarto ponto é a observação internacional. A União Europeia declarou que não há tempo e condições para realizar essas eleições. E o quinto elemento são os partidos, que hoje estão na ilegalidade. 

Houve uma tentativa de diálogo com o governo, por que agora isso não é possível?

Tivemos uma tentativa com mediação da Noruega, mas a ditadura se levantou do processo argumentando que sob sanções era difícil negociar. Apresentamos uma proposta de levantamento de sanções, atrelada a uma transição, com a convocação de eleições presidenciais livres, árbitro independente, a dissolução da Constituinte, que não tem outras funções além de perseguir. Era uma proposta com garantia para todos os setores, incluindo integrantes do regime que não estivessem vinculados a violações dos direitos humanos. Mas não houve vontade por parte da ditadura. Não estamos pedindo a cadeira presidencial, o cargo, pedimos eleições. Imagina a crise no Brasil se o Judiciário declara o Legislativo ilegal? Foi o que fez a ditadura aqui. Não vamos participar de um processo que não tenha as garantias. Por isso, a pressão interna e externa é tão importante.

O senhor iniciou diálogo com Biden pensando em uma possível vitória do democrata?

Com respeito às eleições americanas há duas coisas a dizer: primeiro agradecer a posição desde o início o governo Trump, mas também devo dizer que o respaldo à causa venezuelana tem sido bipartidária por causa do que ocorre aqui. Maduro tem uma denúncia penal nos EUA por tráfico e terrorismo. Não nos preocupamos com a posição dos EUA. Seria mesquinho não agradecer Trump. 

E a relação com o Brasil? Hoje o apoio ao senhor é grande, mas há questões ideológicas fortes. 

É natural uma aliança Venezuela-Brasil, não apenas por sermos vizinhos, mas pelo tema energético, pelo tema da Amazônia. Lamentavelmente, a ditadura destruiu todas as nossas relações com governos na região, como Brasil e Colômbia, alegando questões de caráter ideológico e simplesmente desconhecendo as necessidades dos cidadãos. Mais uma vez, esse não pode ser um tema ideológico E uma questão de direitos fundamentais. Devo agradecer ao presidente Bolsonaro pela Operação Acolhida, que recebeu os mais necessitados e vulneráveis que fugiram da ditadura. 

Como o seu governo conseguiu o auxílio financeiro para ajudar mais de 60 mil médicos durante a pandemia?

Foi uma façanha, porque a ditadura bloqueia a entrega de ajuda humanitária. Conseguimos com o uso de fundos protegidos da Venezuela no exterior. Usamos tecnologia de “blockchain”, por meio de criptomoedas, para que o dinheiro fosse diretamente do fundo para o venezuelano. Foram quase 70 mil atendidos, recebendo US$ 100 por mês durante três meses, e selecionamos o pessoal da saúde sobretudo por conta da pandemia. Atualmente, uma enfermeira ganha US$ 3 por mês. Conseguimos articular uma licitação com várias empresas, mas algumas foram ameaçadas pela ditadura. O regime bloqueou páginas para que as pessoas não conseguissem se cadastrar. Tivemos a permissão dos EUA para usar os fundos e prestamos contas. A ajuda não passou pelo sistema bancário da Venezuela, então as pessoas tiveram de aprender a usar os aplicativos. Enfermeiras foram demitidas por se inscreverem. Mas conseguimos fazer a entrega do auxílio e estamos preparando uma complementação.

Como o senhor reagiu à decisão da Inglaterra de não lhe dar acesso ao ouro venezuelano retido em Londres?

Gostaríamos que a decisão tivesse sido a ratificação da anterior (de conceder a Guaidó o acesso ao ouro), mas não temos dúvida de que vão proteger o ouro da Venezuela para que seja usado em benefício do povo, e não para que a ditadura de Maduro use como mecanismo de pressão social, como também mostra o relatório de Michelle Bachelet, sobre como os fundos são usados para controle social e distribuição de alimentos. 

Como incentivar os venezuelanos a continuarem protestando?

Sofremos uma ditadura. E o que temos aqui é resistência. Queremos proporcionar oportunidades, a possibilidade de ter novamente um país com dignidade, liberdade e democracia. O importante é que nós, de alguma maneira, já desfrutamos de um país democrático. Não temos apenas e recuperar o país, mas recuperar nossa família que está no exílio, recuperar a Venezuela em matéria produtiva. Um menino que nasce em La Guaira, minha cidade natal, e um que nasce em Bogotá não têm as mesmas oportunidades. Meu foco é conseguir que nossas crianças voltem a ter as mesmas oportunidades que outras latino-americanas. A Venezuela não se rende e aí está a chave. Pode haver dificuldades, dor, frustração, mas em nenhum momento houve resignação nem rendição.

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