‘Relação com Havana será mais amigável’

Responsável pela base de Guantánamo evita falar sobre futuro da prisão, mas vê avanços no tema

Entrevista com

John Kelly

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2015 | 03h00

WASHINGTON - O fechamento da prisão de Guantánamo é uma política oficial do governo americano, que deverá estar implementada até o fim do mandato do presidente Barack Obama, disse o general John Kelly, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos e responsável pela administração do complexo localizado em Cuba.

O retorno da base de Guantánamo a Cuba é uma das reivindicações de Havana no processo de normalização de relações com os Estados Unidos. Com disciplina militar, Kelly evita opinar sobre o assunto, mas celebra a reaproximação entre os dois países, depois de 54 anos de isolamento. “A abertura de embaixadas é uma mudança monumental. Essas coisas tendem a levar a um relacionamento cada vez mais amigável”, observou em entrevista por telefone ao Estado. A seguir, trechos da conversa:

Uma das demandas do governo cubano é a devolução a Cuba da base de Guantánamo. Há possibilidade de isso ocorrer?

Eu vou deixar que Havana e Washington resolvam essa questão. Como militares, nós fazemos o que nos dizem para fazer. A boa notícia é que os dois países estabelecerão relações normais. No dia 20, nós abriremos a nossa embaixada e o secretário (John) Kerry estará lá (em Havana). Isso é uma mudança monumental na relação. Como vimos em muitos outros países e períodos, essas coisas tendem a levar a um relacionamento cada vez mais amigável. Em relação a Guantánamo, o Departamento de Estado dos EUA, em Washington, vai aconselhar o presidente e esperamos que os dois países cheguem a um acordo.

Uma das promessas de Obama foi o fechamento da prisão de Guantánamo. Isso poderá acontecer antes de janeiro de 2017?

O presidente definiu o fechamento como uma política oficial. Minha função é administrar a prisão e assegurar que ela seja administrada de maneira humana e digna. Mas não quero especular. É uma política estabelecida que Guantánamo deve estar fechada no momento em que o presidente Obama deixar o governo.

Qual a importância da América Latina e do Caribe para os EUA?

A boa notícia em relação à nossa região é que há uma possibilidade muito baixa de ação militar de um Estado contra o outro. Questões como direitos humanos estão melhorando, as economias estão melhorando. Houve uma desaceleração recentemente, mas as economias estão mais fortes (do que no passado). Minha frustração, algumas vezes, decorre do fato de que, como não há terrorismo nessa parte do mundo, como não há nenhuma ameaça imediata aos Estados Unidos - se tirarmos a ameaça das drogas da mesa por um segundo -, o governo americano está olhando para outra direção. A má notícia é que a relação tende, algumas vezes, a ser esquecida.

O que muda na cooperação militar entre o Brasil e os EUA com os acordos de defesa que foram ratificados pelo Congresso brasileiro antes da visita da presidente Dilma Rousseff a Washington?

Eles facilitarão a expansão de muitas das interações que temos, da educação militar profissional ao compartilhamento de inteligência e de informações, passando pela venda de equipamentos.

O sr. pode dar alguns exemplos de coisas que não podiam ser feitas antes da ratificação e podem ser feitas agora?

Um exemplo que me vem à mente é a transferência de tecnologia, que nós sempre tentamos facilitar entre aliados. Nós já fazemos transferência de tecnologia entre o Brasil e os Estados Unidos. Essas possibilidades de transferência de tecnologia serão ampliadas, afetando o que é vendido, o que é compartilhado.

Quais são as preocupações do Comando Sul com relação ao Brasil?

Não tenho nenhuma preocupação. O Brasil é um de nossos dois ou três parceiros principais (na região). Nós temos uma grande relação. O Brasil não é apenas uma potência regional. É uma potência global, para o bem, envolvida em vários países, dentro e fora do hemisfério.

O crime organizado transnacional na região ainda está relacionado principalmente ao tráfico de drogas?

Não, é relacionado a tudo. Nós temos a tendência de pensar em drogas. Os maiores produtores de cocaína no mundo são Peru, Bolívia e Colômbia, mas também há uma enorme quantidade de mineração ilegal de ouro e de madeira, que é muito lucrativa para os criminosos transnacionais e provoca terríveis danos ao meio ambiente.

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