Relação estável com Brasil deve se manter

Em Brasília, a preferência por democrata é evidente; republicano provoca certo receio

LISANDRA PARAGUASSU , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h05

Apesar da proximidade das eleições nos EUA, a disputa entre o presidente Barack Obama e seu rival, Mitt Romney, não tem causado grandes impressões no governo brasileiro. A avaliação é que, com democratas ou republicanos no poder, não haverá grandes mudanças na "estável" relação entre Brasília e Washington.

No Palácio do Planalto, no entanto, não se esconde um certo apreço por Obama - não apenas pela tradicional identificação dos governos brasileiros desde o fim da ditadura com o discurso democrata, mas também por um certo temor de que a volta dos republicanos ao poder poderia significar também o retorno das políticas econômicas extremamente liberais que provocaram a crise de 2008.

Hoje, o Brasil acusa o governo americano de ser o maior responsável pela supervalorização do real, com sua política de "afrouxamento monetário". Ainda assim, a avaliação é que Obama tentou pôr um freio no mercado. Já as propostas republicanas de baixar impostos e liberar investimentos não agradam aos ouvidos brasileiros.

A avaliação em Brasília é que os dois países estabeleceram uma relação estável e houve avanços em diversas áreas, especialmente na questão dos vistos. Apesar de a exigência ainda não ter prazo para acabar, os EUA investiram em formas de facilitar a concessão do documento aos brasileiros - e hoje o Brasil ultrapassa a China como o país que mais recebe vistos americanos.

Também no programa Ciência sem Fronteiras, centro das atenções de Dilma, os EUA facilitaram a oferta de vagas em suas universidades.

A suposta falta de atenção dos americanos com a América do Sul não incomoda o Planalto. A visão é que a relação hoje é respeitosa e não há mais cobranças de alinhamento. Apesar das visões divergentes em temas como Oriente Médio - especialmente nos casos da Líbia, dos palestinos e do Irã - não há mais no Brasil a sensação de pressão constante por parte dos americanos para que o País mude suas posições. Ao mesmo tempo, os próprios americanos não se cansam de ressaltar que nunca antes tantos emissários de seu governo vieram ao Brasil negociar cooperação em áreas que vão da segurança à agricultura.

Ainda assim, nos últimos quatro anos, não faltaram pequenas crises entre os dois governos. A mais séria delas, ainda não bem digerida pela diplomacia brasileira, foi a reação do governo Obama ao acordo costurado por Brasil e Turquia, ainda no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, para interromper o processo de enriquecimento de urânio no Irã.

A crise mais recente envolveu críticas do representante de comércio de Washington, Ron Kirk, às elevações de tarifas de importação decididas pelo Brasil. A resposta foi dura. Outras duas situações envolveram diretamente os republicanos - e não Obama. As duras críticas da oposição à decisão da Força Área americana de comprar aviões da Embraer provocaram uma crise que acabou levando ao fim do negócio. A outra foi a aprovação de uma lei na Flórida - onde o governador é o republicano Rick Scott - que proíbe a atuação no Estado de empresas que tenham negócios com Cuba, o que afetou a brasileira Odebrecht.

Dilma e Obama têm uma relação considerada "bastante razoável". Não há grande proximidade, mas há entendimento. O governo brasileiro aprecia a visão mais social dos democratas, o interesse pelos direitos humanos e a tendência a usar mais os mecanismos de negociações multilaterais, como o G-20 e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, várias vezes ignorado pelo antecessor de Obama, George W. Bush.

Uma das maiores preocupações de Brasília não é com o futuro presidente americano, mas com quem será o novo chefe do Departamento de Estado. Hillary Clinton já anunciou que deixará o cargo em 2013.

Entre os democratas, nenhum dos dois nomes cotados entusiasma o Brasil. Um deles, o senador John Kerry, nunca demonstrou nenhum interesse pela região e não tem a menor intimidade com os temas locais. A outra possível candidata, a embaixadora americana nas Nações Unidas, Susan Rice, é vista como uma negociadora dura e militarista - ela defendeu uma intervenção armada na Líbia durante a crise que levou à deposição de Muamar Kadafi.

Do lado republicano, a situação pode ser pior. O nome escolhido por Romney seria John Bolton, o mesmo embaixador que, durante o governo de George W. Bush, conseguiu articular a saída do brasileiro José Maurício Bustani do cargo de diretor-geral da Organização para Proibição de Armas Químicas (Opaq).

No Itamaraty, a visão é que o nome do novo presidente não importa tanto quanto a maneira como serão tratados assuntos importantes para o Brasil. Entre eles, a redução do déficit comercial brasileiro é central, assim como o fim dos vistos e a cooperação em ciência e tecnologia. Mas, para além dos temas bilaterais, há uma preocupação com a negociação de paz no Oriente Médio, hoje parada, e com a situação de Irã e Cuba.

"Estamos preparados para trabalhar com qualquer governo (dos EUA). Temos um histórico de relacionamento não apenas entre governos, mas com a sociedade (americana) em geral", disse o porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes. "Temos alguns temas que estarão sempre na agenda e serão tratados com quem vencer as eleições."

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