Relações com China e Tibete afetam eleição em Taiwan

As turbulentas relações de Taiwan com aChina e a recente violência no Tibete dominaram as últimashoras da campanha para a eleição presidencial de sábado nailha, em que ambas as partes tentam se apresentar como a maisqualificada para enfrentar Pequim. Frank Hsieh, do governista Partido DemocráticoProgressista, aparece atrás nas pesquisas, mas vem dizendo aoeleitorado que votar em Ma Ying-jeou, do Partido Nacionalista,mais amistoso com a China, seria transformar Taiwan em "umsegundo Tibete". Taiwan foi o refúgio dos nacionalistas derrotados na guerracivil chinesa, em 1949. Pequim considera a ilha parte do seuterritório, uma "província rebelde", e promete recuperá-lamesmo que tenha de usar a força. A China também ocupa o Tibete,cenário de violentos protestos há uma semana, desde 1950. "Trata-se de uma escolha entre uma Taiwan democrática e umaChina comunista", advertiu anúncio publicado pelo partido PDPna sexta-feira, conclamando os eleitores a "defenderem Taiwan". Para não ficar atrás, Ma criticou o primeiro-ministrochinês, Wen Jiabao, por oferecer negociações de paz nestasemana -- idéia que ele considerou "arrogante, absurda epresunçosa". Ma foi também o primeiro a sugerir um boicote à Olimpíadade Pequim caso a violência no Tibete continue, mas discordouque a ilha possa se tornar um novo Tibete. "Acho que ambos tentam apresentar a imagem de que são duroscom a China", disse Alexander Huang, professor de EstudosEstratégicos da Universidade Tamkang, em Taiwan. "Meupressentimento é de que ambos os lados serão duríssimos com aChina." Ambos os candidatos participaram de vigílias à luz de velascom monges budistas e imigrantes tibetanos, em homenagem aosmortos na repressão aos protestos iniciados em 10 de março emregiões chinesas de população tibetana. Mas o partido de Ma é favorável à eventual reunificação daChina, enquanto o de Hsieh defende a independência. Na TV,Hsieh exibe um desenho animado, ironizando a proposta de Ma, emque trabalhadores chineses e alimentos envenenados invadem ailha. "O que Wen Jiabao diz e o que Ma diz são quase a mesmacoisa, certo?", afirmou Hsieh numa entrevista coletiva naquinta-feira. "É que Taiwan é parte da China." Dois porta-aviões dos EUA foram enviados para fazerexercícios na região de Taiwan durante a eleição. A Chinadisparou mísseis no estreito de Taiwan em 1996, na tentativa deintimidar os eleitores daquela época. Os EUA reconhecemdiplomaticamente a China, mas são os maiores aliados de Taiwan. "Espero que os porta-aviões estejam aqui para passar aPequim o recado de que as pessoas que querem eleições livresnão serão ameaçadas ou intimidadas por forças externas", dissea parlamentar norte-americana Dana Rohrabacher a jornalistasdurante visita a Taipé. Na quarta-feira, a Rússia qualificou como "travessurapolítica" a proposta de realizar um referendo sobre se Taiwandeve solicitar uma vaga na ONU, inclusive abandonando seu nomeformal "República da China". China, Japão, França e Estados Unidos também protestaramcontra a idéia, que será certamente infrutífera, pois Pequimtem poder de veto no Conselho de Segurança quanto a novasadesões. Segundo as pesquisas, Ma está 5 a 10 pontos percentuais àfrente de Hsieh. "Vai ser apertado, mas não acho que Hsiehtenha feito o suficiente para vencer", disse Bruce Jacobs,professor de Estudos Asiáticos da Universidade Monash, naAustrália. "Não acho que o Tibete possa mudar votos." Ambos os candidatos são favoráveis a estabelecer vôosdiretos regulares para a China continental, estimular o turismoe facilitar investimentos chineses, o que poderia ajudar umaeconomia local afetada pela inflação e a estagnação dossalários. Mas as relações comerciais com a China aumentaramsignificativamente nas duas últimas décadas, e empresastaiwanesas já investem 100 bilhões de dólares no outro lado.

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