Embaixada do Irã
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'Relações entre Brasil e Irã têm muito potencial a ser explorado', diz embaixador

Recém chegado, novo embaixador iraniano fala sobre os laços entre os dois países no aniversário de 60 anos da inauguração da Embaixada do Irã em Brasília, a primeira na nova capital do Brasil, em 7 de junho de 1960

Entrevista com

Hossein Gharibi, embaixador do Irã

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 05h00

Em meio a diferenças ideológicas, as relações entre Brasil e Irã se concentram nas áreas em que podem avançar e, na avaliação do novo embaixador iraniano em Brasília, Hossein Gharibi, há um grande potencial a ser explorado. No aniversário de 60 anos da inauguração da Embaixada do Irã em Brasília - a primeira na nova capital e única inaugurada por Juscelino Kubitschek - o embaixador diz que há uma vontade de cooperação mútua entre os altos funcionários nos dois governos.

Isso acontece independente de se tratar, no Brasil, de um governo alinhado à administração Trump, que retirou os EUA do acordo multilateral sobre o programa nuclear iraniano. "Trump pensou que o Irã se renderia em questão de meses. Mas isso não aconteceu e nunca acontecerá", disse Gharibi, em entrevista ao Estadão

Como o sr. define os últimos 60 anos das relações entre Brasil e Irã, estabelecidas no início do século passado? 

Há fundamentos sólidos que mantiveram as relações estáveis entre as duas nações. Os desenvolvimentos social e político de cada lado nas últimas seis décadas certamente impactaram as relações, mas não profundamente. Brasil e Irã continuaram a compartilhar muitas posições comuns no cenário internacional. Juntamente com a Turquia, o Brasil desempenhou um papel fundamental para iniciar negociações sobre o uso pacífico da energia nuclear no Irã.

Quando as duas nações iniciaram um bom nível de relações comerciais nos últimos anos, se deram conta de que era um negócio mutuamente benéfico que poderia se expandir para outras áreas, além de só produtos agrícolas. Tive a oportunidade de conversar com parceiros de negócios de ambos os lados e a reação deles me convenceu de que há muito potencial a ser explorado. A distância geográfica não é considerada um fator desencorajador no momento em que a tecnologia da informação e os avanços da infraestrutura de transporte mudaram as noções tradicionais.

Com o atual governo, houve um momento de tensão após a divulgação de uma nota do Itamaraty sobre a morte do general Suleimani. Apesar das diferenças ideológicas, como são as relações neste momento?

O general Suleimani era um comandante de campo altamente respeitado e um "general de contraterrorismo". A nação iraniana, assim como outras nações da região, deve muito a ele. O Irã seguro e estável como desfrutamos hoje é o resultado de sacrifícios e esforços inteligentes que ele fez. Ele estava diretamente envolvido em salvar a capital do Iraque, Bagdá, e a região do Curdistão de cair nas mãos de terroristas do Estado Islâmico. Se não fosse por ele, o mundo teria de conviver com um governo oficial do Estado Islâmico abrangendo alguns países da nossa região. Milhões de pessoas reconheceram seu papel quando saíram às ruas para prestar uma homenagem a ele.

É uma expectativa lógica que honremos e respeitemos nossos heróis. Sempre existem diferenças. Não há dois governos sem algumas áreas de diferenças. Mas, durante muitos anos, pelo menos após a adesão à Carta das Nações Unidas, as nações aprenderam a desfrutar de boas relações em áreas que são mutuamente benéficas sem serem afetadas por áreas onde há diferenças. Quase 120 anos de boas relações bilaterais (Brasil e Irã) falam por si. Entendi pelo contato com altos funcionários de ambos os lados que existe uma firme vontade de que continuemos a avançar na direção certa, o que é uma escolha de ambas as nações. A comemoração do 60º aniversário da abertura desta embaixada como a primeira embaixada aqui em Brasília, a nova capital do Brasil, é uma maneira de falar mais sobre essa escolha histórica.

Desde seu início, o governo Trump tem focado em impor uma pressão máxima sobre o Irã, não só no Oriente Médio, mas também na América Latina, como nas relações com a Venezuela. Qual o papel do Brasil neste contexto? 

A administração Trump, após a retirada dos EUA do acordo multilateral sob tutela do Conselho de Segurança da ONU, impôs sanções indiscriminadas e como a chamam de "pressão máxima" ao Irã, incluindo a sanção do comércio de itens humanitários. Ele continuou mesmo após a decisão clara do Tribunal Internacional de Justiça, em 3 de outubro de 2018, na qual os juízes ordenaram que os EUA "levantassem medidas restritivas relacionadas ao comércio humanitário, alimentação, medicamentos e aviação civil". Os impactos repentinos e generalizados da covid-19 no povo iraniano também não tiveram efeito no governo dos EUA para mudar essa política bárbara. Trump pensou que o Irã se renderia em questão de meses. Mas isso não aconteceu e nunca acontecerá. No ano passado, tivemos mais de US$ 150 bilhões em comércio exterior, e com uma menor dependência das receitas do petróleo, uma meta que vem sendo buscada há muito tempo. O Irã e o Brasil, como duas grandes economias que podem se complementar, veem suas relações a partir da janela de laços bilaterais de longo prazo.

Antes de vir para Brasília, o sr. trabalhou com o chanceler Zarif e seguiu de perto as negociações sobre o programa nuclear, do qual os EUA se retiraram. Passados a pandemia de coronavírus e as eleições americanas, há expectativa de novas conversações sobre o programa?

Continuamos a viver como sempre e aprendemos a gerenciar as coisas em situações difíceis. Estivemos em negociações com a Alemanha, Reino Unido e França sobre questões nucleares durante anos. Essa plataforma foi ampliada para incluir EUA, Rússia e China a partir de 2012 e, finalmente, um acordo abrangente foi alcançado em 2015. Demorou muito tempo, porque havia muitos problemas técnicos que precisavam de negociações extensas, terminando em 159 páginas de compromissos por todas as partes. Nesse caso em particular, foi também o Conselho de Segurança da ONU que adotou a resolução 2231 e tornou obrigatórios os termos do acordo para todos os membros da ONU.

Em um acordo, existem várias obrigações que cada parte mantém. O presidente Trump decidiu se retirar do acordo e violar os seus termos, bem como a resolução do Conselho de Segurança da ONU, embora os EUA sejam membros permanentes desse organismo. Se os EUA desejarem continuar as negociações sobre a implementação do acordo, retornem primeiro à mesa de negociação do 5 + 1 (as seis potências envolvidas no acordo). Alguns mecanismos foram estabelecidos para o cumprimento do pacto. Não esperamos nada além de que alguns desses mecanismos sejam aplicados no próximo ano ou mesmo depois. 

Como vários outros países, o Irã foi afetado severamente pela pandemia. O governo foi criticado por não agir rapidamente. Em que ponto houve uma tomada de consciência sobre a extensão da crise? 

O Irã foi um dos primeiros países atingidos pela pandemia. No fim de fevereiro, uma sede central de monitoramento e operação foi formada sob o comando direto do presidente Rohani. Certas restrições foram aplicadas e posso dizer que as pessoas têm sido extremamente cooperativas desde então. Uma medida importante que ajudou muito a salvar vidas foi a rápida decisão de isolamento antes do feriado de ano-novo (ano-novo persa, 20 de março). Ele começa em 21 de março de cada ano e geralmente dezenas de milhões viajam pelo país durante as três semanas de férias prolongadas. Essa medida acabou por um impedir um grande número ou posso chamar de um tsunami de novos casos de infectados. Outra decisão importante e corajosa foi fechar todas as mesquitas e santuários sagrados, onde muitas pessoas se reúnem para oração e rituais religiosos todos os dias. No início, isso era impensável, mas as pessoas e os líderes religiosos provaram o quão racionais eram quando uma séria ameaça colocava em risco a sociedade e a saúde pública. Tais restrições estão diminuindo gradualmente, considerando que os protocolos de saúde são observados por todos. Espero que o Irã e o Brasil tenham pleno sucesso no controle da pandemia. Esse flagelo mostrou quão vulneráveis ​​estamos em qualquer lugar do mundo e que precisamos pensar em uma cooperação aprimorada para um mundo melhor e mais seguro.

 

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