Relatório amplia apoio dos americanos à guerra

O discurso de Colin Powell nas Nações Unidas, na última quarta-feira, pode não ter impressionado os aliados, mas produziu o efeito que o governo Bush desejava entre os americanos. Líderes oposicionistas, jornais e colunistas que vinham criticando a estratégia do executivo em relação ao Iraque disseram-se persuadidos, hoje, pela denúncia que o secretário de Estado fez na véspera ao Conselho de Segurança, sobre a "campanha sistemática" do Iraque para esconder armas de destruição em massa e enganar os inspetores da ONU.Cresceu, também, o apoio da opinião pública nos Estados Unidos a uma solução de força para desarmar o regime de Bagdá. Segundo sondagens de opinião realizadas pelo Washington Post/Rede ABC de televisão, e pela CNN/USA Today, seis em cada dez americanos acreditam que Powell apresentou argumentos suficientes para justificar uma guerra contra o Iraque - um aumento de 7% em relação a pesquisas feitas na semana passada."Ele me convenceu - e eu era dura como os franceses para ser convencida", escreveu Mary McGrory, no Washington Post. "Se alguém tinha alguma dúvida, Powell provou que o Iraque está desafiando a lei internacional e está desafiando a ONU a agir ou calar-se", disse o colunista liberal Richard Cohen. "Não há outra escolha".Políticos que até a véspera não escondiam sua preocupação em relação ao caminho tomado por Bush na confrontação com Saddam cerraram fileiras com a administração."Está claro que, depois do indiciamento que ouvimos, Saddam tem apenas mais uma chance para obedecer (a ONU) e desarmar-se", afirmou o senador Edward Kennedy, democrata de Massachusetts que há menos de duas semanas criticou duramente a "pressa de Bush de ir à guerra" com o Iraque. O senador John Kerrey, senador de Massachusetts e pretendente à Casa Branca, defendeu o estabelecimento de um prazo final para Saddam Hussein revelar onde está seu arsenal ou arcar com as conseqüências."Eu não creio mais que as inspeções funcionarão", disse a senadora Diane Feinstein, oposicionista da Califórnia. O líder da minoria democrata no Senado, Tom Daschle, de Dakota do Sul, que dias antes pedira a Bush para apresentar provas de que Saddam possui armas de destruição em massa, chamou a apresentação de Powell de "poderosa, metódica e convincente". Ao mesmo tempo, todos insistiram na necessidade de assegurar o apoio internacional para uma ação militar punitiva contra o regime iraquiano.Amparado pela reação positiva a seu discurso, o secretário de Estado compareceu hoje perante a Comissão de Relações Exteriores para consolidar o apoio do Congresso, que usará agora como munição para tentar assegurar o aval do Conselho de Segurança para uma ação militar - algo que vem perseguindo com sucesso desde meados do ano passado, quando convenceu Bush a insistir na aprovação de uma nova resolução para legitimar a estratégia americana de desarmar o Iraque.Embora a solução militar pareça cada dia mais provável, a estratégia desenhada por Powell ainda poderá produzir o resultado final desejado sem a necessidade de um conflito. Um dos defensores dessa tese é Zbgniew Brzezinski, professor de Política Externa Americana da Universidade de Johns Hopkins e ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, no governo Carter. Falando ao programa NewHour, da rede PBS, na noite de quarta-feira, Brzezinski observou que Powell comprovou que o Iraque representa uma ameaça, mas "não demonstrou, nem tentou demonstrar (ao Conselho de Segurança) que o Iraque é uma ameaça iminente". Tendo em mente perigos mais imediatos, como a Coréia do Norte, Brzezinski sublinhou a necessidade de garantir "uma resposta coletiva" a Bagdá.O ex-assessor presidencial está convencido de que Powell tem essa preocupação e chamou atenção para duas frases de sua apresentação ao Conselho de Segurança: "Adotamos a resolução 1441 para dar ao Iraque uma última chance, mas até agora o Iraque não usou essa última chance", disse Powell. Para Brzezinski, a implicação dessa declaração é que depois que o chefe dos inspetores de armas, Hans Blix, visitar Bagdá neste fim de semana e conversar com os chefes militares iraquianos, "nós vamos especificar coletivamente, de alguma forma, uma lista pormenorizada de perguntas para questões específicas sobre armas que estão sendo escondidas (dos inspetores) e programas de produção de armas em curso".Nesse cenário, Saddam Hussein "pode escolher responder ou os generais podem fazer essa escolha e removê-lo, mas temos que estar dispostos a dizer que se houver cumprimento das condições impostas pelo Conselho não haverá guerra", disse Brzezinksi. Se ele responder negativamente e os generais iraquianos não tomarem providência, "meu cálculo é que o próprio processo gerará o apoio internacional (a uma solução de força), que os EUA não obtiveram até agora porque eu não creio que estávamos atuando corretamente", disse Brzezinski.Matérias relacionadas: Vaticano considera "pouco convincentes" as provas de Powell Blair vê dificuldades em obter apoio para a guerra Clima tenso em encontro de Powell com Villepin Powell não consegue convencer China, Rússia e França Mesmo com oposição popular, Aznar mantém apoio à guerra União Européia é a primeira vítima da guerra no Iraque

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